quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Natividade da Serra (4): Entrevista com Carlos Pérez Gomar, arquiteto e pesquisador arqueológico


 Por Pepe Chaves*
De Belo Horizonte-MG
06/11/2012
 
Para Carlos Pérez Gomar, nas ruínas de Natividade da Serra há muito a se explorar.


Por cerca de um ano, tenho sido testemunha dos esforços movidos pelo arquiteto e pesquisador arqueológico Carlos Pérez Gomar, no sentido de conscientizar sobre a importância das supostas ruínas em uma propriedade rural, no município de Natividade da Serra, interior do Estado de São Paulo. Após fazer duas visitas ao local e escrever dois artigos, Gomar está  convencido de que se trata mesma de um sítio arqueológico, “Nem que seja de 200 anos atrás”, conforme nos afirmou. Para ele, ao longo dos séculos, uma antiga obra vem sendo aos poucos desmantelada, inclusive, por ações do atual proprietário do terreno. Antes mesmo de visitar o local, escreveu o artigo Especulações sobre a Ruína de Natividade, no qual faz seus primeiros levantamentos com base em imagens e informações obtidas do local. Após visitar as supostas ruínas pela primeira vez, o pesquisador reportou o que encontrou por lá ao escrever o artigo Nas supostas ruínas de Natividade da Serra. Ele ainda escreveu mais um artigo, intitulado Desfazendo o equívoco da 'pirâmide' de Natividade, no qual procura desvencilhar equívocos e mal entendidos acerca das ruínas de Natividade, que chegaram a ser chamadas por alguns de "Pirâmide da Serra do Mar". Gomar acredita que as ruínas de Natividade nada tenham a ver com pirâmides, mas que possam ser totalmente distintas de qualquer outras já encontradas no território do Brasil. Ele também alerta às autoridades do patrimônio nacional para a necessidade de preservação e estudo do achado, que consiste em sua maior parte, em grandes blocos de pedras talhadas e polidas por técnica desconhecida. O pesquisador autônomo informa que já enviou ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) um laudo técnico, lavrado por ele e com diversos detalhes técnicos e imagens desses achados líticos. O relatório foi produzido após duas visitas ao local, cujas despesas para viagem e pesquisa foram custeadas com recursos próprios do pesquisador . Nesta entrevista, gentilmente concedida por e-mail, Carlos Pérez Gomar nos fala também, um pouco de seu pensamento sobre a arqueologia brasileira e daquele que ele acredita ser o verdadeiro papel do arqueólogo nacional, dentro nos contextos histórico e pré-histórico nacionais. 
 
Via Fanzine – Primeiramente, como o senhor tomou conhecimento do suposto sítio arqueológico numa propriedade particular em Natividade da Serra, no interior do Estado de São Paulo?

Carlos Pérez Gomar – Em consultas na internet, de repente, topei com uma notícia em um site que tratava de OVNIs, onde se noticiava uma ruína descoberta em São Paulo, mas o responsável pelo site teve a boa percepção de abordar o assunto declarando que, apesar de esta ruína não ter nada a ver com OVNIs era um caso muito interessante. Segundo esta noticia o Sr. Isaias Balthazar da Silva mandava um informe constando de um relatório feito pelo geólogo Paulo Roberto Martini e a reportagem feita pelo jornalista Julio Ottoboni. Na notícia, se falava de uma pirâmide. O que me pareceu um pouco precipitado, mas as fotos eram incontestáveis, com vestígio de uma ruína, e tinham características muito estranhas. Estou habituado a ver restos de construções antigas, mas nas poucas fotos que havia, estas tinham algo diferente.  
 
Via Fanzine – Antes de visitar o local, quais foram suas primeiras impressões acerca que pôde ver pelas imagens e relatos relacionados, então veiculados em poucos sites, a respeito das possíveis ruínas encontradas naquele lugar?

Carlos Perez Gomar – De imediato notei que o tratamento das pedras não era o habitual em trabalhos contemporâneos ou mesmo “coloniais”. E quando coloco esta palavra entre aspas, eu o faço porque o termo é usual para designar qualquer ruína velha que aparece. E isto não é conveniente, porque pode nos levar a raciocínios simplistas. As pedras que apareciam naquele local, blocos e lajes, seguiam um padrão parecido ao paralelismo, mas em certos lados se indisciplinavam de uma maneira que não seria lógica para os nossos pedreiros. As superfícies apresentavam um aspecto que o ponteiro e a talhadeira não deixam. Eram muito suaves apesar de ondularem. Davam a idéia de pedra polida. Os vértices e arestas eram arredondados. O bloco principal que aparecia em uma das imagens tinha todo o aspecto de uma verga; de um vão de porta ou janela dos restos de uma robusta parede de pedra. Eu a classifiquei como uma arquitrave, porque uma verga é algo muito menor e mais fraca. Esta peça tinha 1.62 de comprimento por 65 de largura e 34 de altura, seu peso era de 900 quilos. Eu já tinha visto essas pedras em outro lugar. Sobretudo, esses tipos de blocos e lajes associados. Também havia o fato incontestável da camada de alteração superficial que denotava grande antiguidade. O problema é que se for considerada dentro do tempo histórico ou pré-histórico, parece fora de propósito e dentro de um tempo geológico colocaria estas pedras numa idade em que nem civilização havia. Este fato precisa ser bem pesquisado. Mas a existência de muitas pedras juntas com talha nitidamente manufaturada não deixa dúvida que por ali andaram homens. Quem e quando, cabe a nós pesquisar.         
 
Via Fanzine – Algumas informações foram divulgadas por um jornal e na internet, dando conta de que havia uma imensa pirâmide soterrada no local. Entretanto, o senhor rebateu esta ideia em um de seus artigos sobre Natividade, afirmando que se tratava de uma “informação equivocada”. Por que pensa assim?

Carlos Pérez Gomar – A menção a uma pirâmide me pareceu precipitada, mas havia explicações que depois compreendi. Quando fizeram a escavação no local jogaram a terra para baixo e ficou um talude plano e inclinado que parecia o lado de uma pirâmide. Até hoje a imagem aérea mostra este retângulo verde claro. Para piorar a confusão, o proprietário do local montou uma estrutura de madeira com quatro vértices e nove metros de altura em forma de pirâmide e, segundo se dizia, seria a diretriz para construir uma pirâmide de pedra. Aqui há varias versões mais, aumentando a confusão... O fato é que a palavra pirâmide reinava. Além do que, esta palavra é mágica para agitar as pessoas curiosas. Em contrapartida, no Brasil é mágica também, para afastar pesquisadores sérios. De imediato estabeleci comparações com edificações sulamericanas e mesmo sabendo que estava cometendo uma heresia, comecei a analisar o pouco que se via, estabelecendo comparações com culturas próximas. Pelo que via nas fotos, me pareceu que estava vendo restos de uma calçada levemente inclinada indo em direção ao topo do morro e os montes de pedra próximos davam a ideia de muros desmoronados. Isto é típico de quase todos os estabelecimentos sagrados ou fortificados de qualquer cultura sulamericana mais avançada. Mas se eu estava delirando, não estava sozinho, porque outro pesquisador que esteve no local, por duas vezes, e autor de 50 livros, desconfiou da mesma coisa e estabeleceu ligação destas ruínas com o chamado Peabiru, a rede de caminhos que se espalhava por grande parte da America do Sul.  

Notícia equivocada foi veiculada por um jornal e ajudou a causar confusão sobre a "pirâmide".

Via Fanzine – Quando se deu a sua primeira visita ao local e o que mais chamou a atenção naquela ocasião?
Carlos Pérez Gomar – Após fazer uma especulação através apenas de fotografias do sítio, resolvi ir ao local. No final de janeiro de 2012, fiz uma visita de dois dias. A primeira coisa que me ressaltou à primeira vista foi que aquele vale tem toda a cara de ter sido um enorme açude ou lago no passado, com certeza. Muito maior que o atual, fruto de pequenas barragens, faz uns 20 anos. A segunda pergunta que me fiz foi porque alguém escolheria uma colina sem mais significados para levantar alguma coisa. É preciso sempre se perguntar se o que se está vendo tem a mesma imponência que possa ter tido no passado. A geografia e a paisagem, consequentemente, mudam muito. E um local que hoje não nos diz nada, pode ter sido um local maravilhoso ou muito conveniente no passado próximo ou remoto. Além de que, nem sempre saberemos qual pode ter sido o interesse de quem se estabeleceu ali. Há mais uma curiosidade, se observarmos a topografia dos arredores, considerando dezenas de quilômetros em volta, não acharemos outro lugar mais amplo do que este vale onde está o açude e o sítio. Isto pode ser observado em mapas topográficos. Teria sido essencial esta amplidão para alguém instalar–se ali? Porque os outros vales próximos são quase todos espremidos e menores.    
 
Via Fanzine – O que destaca de sua segunda visita ao local?
Carlos Pérez Gomar – Na segunda visita ao local já fui com objetivos mais precisos. Parti direto para verificar a ladeira da colina, as pedras que ainda aparecem e examinar vestígios de talhas. A palavra talha não é bem o apropriado porque talha lembra talhadeira, quer dizer, cortes através de golpes, e o que parece haver naquelas pedras é um desgaste através de golpes, mas por efeito de polimento, resultado de instrumentos sem muito corte. E quando falo de “sem corte” posso estar falando de lâminas de pedras duras com efeito similar aos machados de pedra indígenas que realizavam trabalhos similares aos machados de aço, porém, com muito maior tempo de trabalho, pois, na verdade, não cortavam, senão desbastavam. Achei sem muitas dificuldades, grande número de blocos semisoterrados, com vestígios de trabalho humano. Também vi lajes que, nitidamente, não são naturais pelo aspecto de esquadro. Concluo que a colina está semeada de restos de construções ou de uma construção mais ampla e, possivelmente, no topo haveria algum elemento mais significativo. Creio que, dificilmente estarei errado. E esta colina pode ser apenas uma parte em destaque de ruínas que possam estar muito enterradas na parte baixa, que deve ter sido inundada por diversas vezes, o que as deixariam quase imperceptíveis.   

Via Fanzine – No Relatório sobre as referidas ruínas, o qual o senhor nos informou que enviará ao IPHAN, o senhor afirma que o proprietário da fazenda em que se encontra o suposto sítio arqueológico poderia ter destruído uma antiga parede ou muro de pedras; além de, possivelmente, ter enterrado imensas pedras talhadas em formato de blocos ao utilizar este material para construir um dique de contenção. Como o senhor chegou a tais conclusões?

Carlos Pérez Gomar – Vou lembrar três exemplos que sempre cito. A muralha de Adriano, na Inglaterra, foi desmontada para fazer cercas de pedra pelos fazendeiros locais, e ninguém pensou em condená-los. As pirâmides principais, perto do Cairo, foram despojadas de seus blocos de calcário (verdadeiros prismas óticos) para os edifícios daquela cidade. E, Sacsayhuman, foi destruída em 80% para levar as pedras para as construções coloniais de Cuzco. E na Fazenda Palmeiras, em Natividade da Serra-SP, aconteceu e com certeza vem acontecendo, faz séculos, o desmonte destas ruínas para aproveitamento dos materiais em outras obras. Com certeza, esta ação não pode ser imputada integralmente ao atual proprietário. Sabemos o que aconteceu recentemente, mas nunca saberemos o que aconteceu faz 100, 200 ou mais anos atrás. Tive confirmação da retirada considerável de materiais do local, através de testemunhas que trabalharam nesse empreendimento durante alguns anos. E, especificamente, houve referência de uma parede ou muro de pedra que foi desmontada. Creio que podemos acreditar no testemunho daqueles que participaram do desmonte. E, segundo eles, havia também o que pareciam degraus de uma escada subindo a ladeira. Vale a pena examinar os edifícios do Hotel Fazenda para ver a que nível foram usadas as pedras do sítio em sua construção.       
 
Via Fanzine – Além disso, o senhor também afirma que, possivelmente, o proprietário da fazenda teria encontrado antigos objetos cerâmicos ou de outros materiais e ainda, que teria enterrado parte das pedras talhadas que foram encontradas no local. Por favor, comente sobre isso.

Carlos Pérez Gomar – Segundo pessoas que trabalharam no local, foi achada uma “cumbuca”, nas palavras deles. Que parecia de pedra, mas se desmanchou na sua retirada. Estas mesmas pessoas também comentam que, eventualmente, o proprietário pegava algumas coisas que apareciam e as guardava. Mas não chegavam saber o porquê. Que a parte inferior do muro não foi demolida, mas foi novamente enterrada é declaração destas mesmas testemunhas. Uma destas testemunhas viu quando foi achada no topo da colina uma pedra em forma de tetraedro, uma pirâmide de três lados, com uns 60 cm de altura. Segundo ele, esta pedra estaria guardada na casa principal do Hotel.     
 
Esse autor e detalhes por vários ângulos do grande bloco de pedra talhada encontrado na região.
        
Via Fanzine – Em determinados locais daquele terreno, o senhor pôde verificar também, uma grande quantidade de pedras soltas. O que isso pode representar?

Carlos Pérez Gomar – Evidentemente, seja o que tenha existido nesta colina, foi sendo desmontado pela natureza através da erosão e do crescimento e morte das árvores e, posteriormente, pela coleta das peças mais aproveitáveis para construções. Considerando as peças que aparecem à flor da terra, estabelecendo comparações com outros locais sulamericanos, ali haveria no mínimo, alguns muros escorando platôs, escadas e, talvez, algumas construções de uso quotidiano ou religioso - ainda que esta afirmação seja de caráter particular e não tenha base na arqueologia oficial até o momento. É elementar especular se haviam construções naquele vale, a colina seria ponto de destaque religioso. Na verdade a simples existência de uma construção com pedras aparelhadas no Brasil pré-cabraliano seria uma novidade, por enquanto, sem apoio na arqueologia acadêmica. Mas, isto se saberá quando o sítio for devidamente pesquisado. Até lá, estou propenso a aceitar qualquer hipótese, ainda que depois tenhamos que retificá-la. Contudo, é preciso ir ao local com muita amplidão de pensamento. 
     
Via Fanzine – Segundo relatos na localidade, parece haver evidências de que o proprietário do terreno contratou um arqueólogo para emitir um laudo, certificando que as formações rochosas encontradas no local seriam de origem natural, possivelmente, visando com isso, ocultar as ruínas de um povo antigo que teria resido naquele local... 

Carlos Pérez Gomar – Foi levantada essa hipótese, mas consultei o  IPHAN em São Paulo e eles não têm registro ou laudo algum feito naquele sítio e, consequentemente, o local ainda não é considerado sítio arqueológico. Mas, é possível que o proprietário tenha lançado este boato para afastar curiosos e enterrar o assunto que estava se tornando complicado. E um determinado arqueólogo que é citado em alguns artigos como tendo ido ao local e feito declarações, já afirmou que nem conhece o lugar, por isso, não fez declaração alguma. Entretanto, surgiram na imprensa declarações atribuídas a ele, mas estas têm a sua negativa. 
 
Via Fanzine – Quais são as características mais marcantes do suposto sítio arqueológico de Natividade da Serra e como ele pode ser classificado?

Carlos Pérez Gomar – Pelo que já dissemos se trata de um sítio, que se não é “colonial”, não tem explicação lógica para ter pedras aparelhadas. Não se enquadra na cultura dos índios tamoios que ocupavam a região e não temos referência à outra cultura na área, que possa ser responsável pelas ruínas. Por enquanto parece único. Se algo aparece e não existem similares na região, podemos especular como primeira hipótese, que seja obra de alguém que esteve de passagem. Mas devemos estar preparados para, eventualmente, sermos alvo de uma peça pregada pelas circunstâncias e, de repente, virmos a descobrir que se trate de um sitio histórico, produto de misturas culturais e técnicas europeia e indígena mistas. As possibilidades são inúmeras. Só mesmo a pesquisa arqueológica profunda vai responder essa questão.

Grande quantidade de pedras soltas em uma encosta, algumas apresentam cantos retos.

Via Fanzine – Considerando que se trate de ruínas de um antigo assentamento, para o senhor que tipo de povo poderia ter habitado aquela região num passado não registrado pela nossa história?

Carlos Pérez Gomar – Essa pergunta exigiria uma bola de cristal. Mas, entrando no terreno das especulações, e analisando as similitudes, por incrível que pareça se assemelha a construções incaicas. E nesse caso, estaria de acordo com o que levantou outro pesquisador que esteve no local, que o associou ao Peabiru. Isso, considerando pelo tipo de pedras, blocos menores, lajes e blocos maiores, quase no esquadro. Poderia ser enquadrado numa hipótese andina e se quisermos ser mais atrevidos poderíamos arriscar o período de 1400 a 1500, aproximadamente, a julgar pelos tipos de blocos e lajes. Sobretudo, porque este foi o período em que o império incaico executou as maiores e mais longas expedições e atingiu sua maior expansão. Mas haveria que saber, com certeza, se aquelas camadas de alteração que algumas das peças mostram estariam de acordo com esta suposta idade. Também podemos estar diante de algo muito mais antigo, sempre há uma primeira vez.     
 
Via Fanzine – Foram encontradas pedras talhadas de maneira bastante precisa para um passado distante. Isso não poderia evidenciar que o material encontrado se trate de restos de uma antiga fazenda dos tempos coloniais, por exemplo?

Carlos Pérez Gomar – A fazenda antiga que existia no local ficava onde hoje está o hotel, a 800 metros de distância e, logicamente, perto do Rio Paraibuna, a 50 metros. Qualquer fazenda anterior não devia ser uma fazenda, mas um estabelecimento bem precário e nesse caso, as construções seriam com materiais menos padronizados e com certeza usariam argamassa com cal, ou mesmo seriam construções de pau a pique com barro. Poder-se-ia argumentar que estando longe do mar não se dispunha de cal, principalmente, proveniente de antigos sambaquis e por isso não apareceria argamassa com cal. Poderia ter sido usado barro apenas. Essa hipótese não pode ser descartada totalmente, por enquanto. Mas construções com blocos de granito enormes e lajes padronizadas somente eram feitas em casas senhoriais importantes, como as fazendas de café do vale do Paraíba. Naquele local não se plantava café, se criava gado. Uma fazenda dessa época, que tivesse um tratamento arquitetônico tal, não sumiria sob a terra como parece ter acontecido com o que havia no sítio em questão. Haveria ruínas maiores e, possivelmente, restos de paredes ainda em pé. Também não podemos excluir a hipótese que em tais alvenarias possa ter sido usado o barro para dar mais coesão às pedras. Mas, isso somente será detectável quando for achado um trecho de alvenaria intacto. Duvido muito que tenham ido para aquele local, nos primeiros tempos, pedreiros profissionais. Ali era no máximo um local para as paradas de tropeiros, nem havia vila.  
 
Via Fanzine – O senhor nos informou que, através de um Ofício e um relatório da visita, estará certificando o IPHAN a respeito dessa descoberta em Natividade da Serra. O que está sendo colocado junto a esse Instituto e, para o senhor, o que deveria ser feito em Natividade da Serra?

Carlos Pérez Gomar – Foi enviado um relatório e informações avulsas, solicitando uma visita para verificação do sítio e sendo comprovado como sítio arqueológico, este seja colocado sob proteção federal e pesquisado. Em minha opinião, trata-se de um sítio arqueológico, ainda possa ser somente de 200 anos atrás.
 
Via Fanzine – Nós soubemos que o proprietário deseja se desfazer de toda a Fazenda Palmeiras, incluindo a estrutura do hotel. É verdade?

Carlos Gomar – Sim. Segundo eu soube, o Hotel Fazenda está à venda. O proprietário se cansou dele. Trata-se de uma área com 1.000.000 m2, incluindo construção com muitos apartamentos, casa principal, pavilhão, refeitório, além de outras muitas instalações e benfeitorias. E de quebra, um sítio arqueológico. Seria muito bom que alguém com visão de pesquisador o compra-se. O pessoal da vila, pessoas humildes e trabalhadoras, quer ver este estabelecimento funcionando, porque isto lhes dará trabalho. Também estão torcendo para que se revele o sítio arqueológico, que pode mudar o status do local, inclusive, do ponto de vista turístico. E por incrível que pareça as duas coisas se combinam muito bem: um sítio arqueológico a se explorar, já com as instalações completas para pesquisadores e possíveis interessados. Inclusive, sobre este assunto, conversei com vários moradores e com professores da escolinha do local, para que tenham mais curiosidade com o que possa ter acontecido ali no passado.    

Bloco cortado apresenta uma fratura que revela a sua história recente e remota.

Via Fanzine - Nós temos visto, generalizadamente, os arqueólogos acadêmicos brasileiros se referir a qualquer descoberta como sendo de período “colonial”, como se tudo estivesse relacionado a este período da nossa história. O que o senhor pensa desse a respeito de tal “comportamento padrão” observado pelos mais atentos?

Carlos Pérez Gomar – Evidentemente que, quem está em funções oficiais ou acadêmicas não pode se expor demais a aventuras incertas. Ademais, raramente tem tempo para investigar coisas estranhas ou muito fora do padrão. E esse costume de chamar de “colonial” a qualquer ruína que aparece não exime ninguém da obrigação de investigar o assunto. Porque grande parte do patrimônio nacional é constituída de restos “coloniais”. E se o sítio em questão for “colonial” também seria um sítio arqueológico. Mas não podemos criticar a totalidade dos profissionais da área pelas atitudes de alguns que se omitiram. Tenho certeza que há muitos arqueólogos idealistas, principalmente, entre os mais jovens. E espero que eles se interessem mais pela arqueologia brasileira e sulamericana do que pela Egiptologia ou similares. Reconheço que a arqueologia brasileira parece um pouco árida, mas se não for mais prestigiada vai continuar assim.       
 
Via Fanzine – Para o senhor, por que há um desinteresse tão grande seja da sociedade, das autoridades, dos políticos e até mesmo dos pesquisadores profissionais, em torno da história, da arqueologia e da paleontologia brasileiras?

Carlos Gomar – História, arqueologia, paleontologia e ciências afins não são muito populares em nenhuma parte do mundo. É interesse de uma minoria da população. Consequentemente, não dão muito dinheiro e nem tem a capacidade de movimentar capitais como o esporte, novelas ou filmes e outras atividades sem compromisso com a realidade. Nas ciências citadas não se dá passo sem estar certo do passo anterior e, mesmo assim, às vezes, se pega a pista errada. Os resultados nessas ciências vêm a contagotas e, dificilmente, se tem uma revelação bombástica que entusiasma um grande grupo de pessoas. Justamente por isso, os autores de realismo fantástico sem compromisso com resultados concretos e cientificamente provados fazem tanto sucesso. Pegam-se alguns elementos conhecidos e consagrados e a partir deles se montam estórias fantásticas e fatos mirabolantes que entusiasmam muita gente. Só que não são verdadeiras.  Por outro lado a arqueologia brasileira está carente de alguns episódios que a tirem da área apenas de sambaquis, cerâmicas, sítios líticos etc. Resumindo, arqueologia também precisa dar IBOPE.  Creio que os arqueólogos brasileiros deveriam ter como primeiro interesse, a arqueologia brasileira e, em segundo lugar, a sulamericana, porque é evidente que estão intimamente relacionadas. A América do Sul não tinha fronteiras no passado.     
 
Via Fanzine – Agradecemos pela entrevista e pedimos para nos deixar as suas considerações finais.

Carlos Gomar – Pelo que pude ver, o sítio de Fazenda Palmeiras, é um sítio arqueológico, “colonial” ou não. Alguém deixou um testemunho antigo ali e vale a pena investigar. Pode ou não ser um fato novo na arqueologia brasileira. Mas, só saberemos se for pesquisado e não destruído ou ignorado, como deve ter acontecido com muitos outros. Não me parece lógico nem aceitável o fato de pesquisas que possam contribuir para a formação da identidade e da cultura nacional sejam impedidas pela falta de interesse, ou por motivos particulares de algumas pessoas.

* Pepe Chaves é editor do diário digital Via Fanzine e da Rede VF.
  
- Fotos: Arquivo Carlos Pérez Gomar.
 
- Contato com Carlos Pérez Gomar, pelo e-mail: viafanzine@gmail.com

domingo, 25 de novembro de 2012

Natividade da Serra (3): Desfazendo o equívoco da 'pirâmide' de Natividade

Complemento ao relatório da visita à chamada ‘pirâmide’ da Serra do Mar, em Natividade da Serra.


  
Por Carlos Perez Gomar*
De Natividade da Serra-SP
28/07/2012 
 
Algumas das pedras cortadas que foram encontradas por este autor no sítio.

Falar do “Imbróglio” da “pirâmide” da Serra do Mar é uma tentativa de explicar a trapalhada ou o sucateamento de um sítio arqueológico.
 
Estive neste local em janeiro deste ano, e me sinto obrigado a prestar alguns esclarecimentos.  
 
Em 2003, o proprietário do Hotel Fazenda Palmeiras, depois de uma viagem a Grécia e ao Egito, se inspirou para fazer uma pequena pirâmide de pedra em sua propriedade. Com certeza escolheu um local onde havia muitos blocos de pedra amontoados, o que facilitaria a construção.
 
É conveniente, inicialmente afirmar que não há nenhuma pedreira no local do sítio em questão como alguns dizem. Este sítio está localizado no início de uma encosta suave, que leva ao topo de uma colina baixa que deve ter no máximo 30 m de altura. Quem quiser obter maiores informações pode ver nosso relatório da visita ao local, na internet sob o titulo: “Relatório da visita à chamada ‘pirâmide’ da Serra do Mar, em Natividade da Serra”.
 
Preciso comentar alguns fatos absurdos que aconteceram e deram ao sítio um ar de realismo fantástico, além de desmoralizarem e afastarem qualquer pesquisador sério. 
 
É evidente que a reportagem da Gazeta do Povo, de Curitiba, datada de 29 de fevereiro de 2004, onde se insinua uma pirâmide esquematizada em quadriculas, moldou uma imagem equivocada do sítio em questão.
 
A partir daí, noticias sensacionalistas se propagaram pela internet e várias pessoas andavam procurando por pirâmides através do Google Earth, na área de Natividade da Serra. Quase ninguém foi ao local e, muitos daqueles que nem foram, davam palpites, cada um mais fora da realidade do que o outro. Quem não queria se arriscar tachou as pedras talhadas que apareceram no local como “coloniais”, sem mais análises.
 
Há uma tendência a decidir se algo que surge, é diferente, ou duvida-se de sua existência, ou é rapidamente enquadrado compulsoriamente em qualquer conjunto de similares existentes. Não é uma colocação muito científica, sempre pode haver uma primeira vez.
 
Quando uma construção em encosta desmorona, toma a forma de um talude, que alguém pode tomar pelo lado de uma pirâmide. E é por isso que tantos vêm pirâmides em vários morros brasileiros, ainda que em algum possa haver, de fato, uma construção soterrada.  
 
É quase evidente, e muito provável que essas pedras amontoadas do referido sítio eram parte de uma antiga construção, parte desmoronada, parte soterrada. É o que podemos concluir, considerando tudo o que aconteceu depois. Mas, em um primeiro golpe de vista, para a maioria, não seria nada mais do que um “monte de pedras”.

Notícia equivocada veiculada por um jornal ajudou a causar confusão sobre a "pirâmide".

No local, começou-se a aplainar o terreno, fazendo uma escavação ignorando se havia ou não uma ruína ali.
 
Todo o material escavado foi colocado ladeira abaixo como se pode ver no local, formando outro amontoado de pedras. É também quase certo que muitas pedras estariam sendo preparadas para usar na pequena pirâmide que seria construída e, com certeza, algumas já estariam montadas umas sobre as outras.
 
Em dado momento começaram a aparecer, enterradas, pedras de corte reto e com sinais de terem sido trabalhadas por mão humana. O proprietário começou a perceber o que parecia ser restos de uma ruína antiga e teria feito contato com o IPHAN.
 
Sendo o proprietário uma pessoa instruída e viajada, percebeu logo que havia algo de aparente importância naquelas pedras cortadas. E não vou entrar em mais detalhes para não expor sua vida pessoal além do necessário para explicar o tema deste texto. O proprietário do terreno é também autor e escreveu um romance fictício ambientado na Grécia e no Egito, intitulado “Cinirenaica”, pela editora Nova Aldeia, 2010.
 
Até um leigo desconfia se uma pedra de corte reto pode ser natural ou não. Além disso, apareceu uma pavimentação, ainda que bruta, composta por vários blocos e varias lajes, seguindo um padrão parecido. Todos juntos, com certeza, não são uma formação natural, além de que, os blocos e lajes aparecem em vários pontos encosta acima. Também teria sido achado um pedaço de cerâmica em baixo de um grande bloco. É de se supor que houvesse outros, mas em uma escavação não arqueológica, muitos restos se perdem ou não são achados.
 
Estive no local e sei o que vi. Ali houve uma construção, e foi bem enterrada pelo tempo. Se foi colonial ou não é outro assunto. A priori não é possível dizer a que época pertence e, menos ainda, com os vestígios agora remexidos. No entanto, os blocos e lajes as pedras claramente trabalhadas parecem ser de acabamento mais para o tipo polido, o que as desclassificaria como vestígios coloniais. Pedras talhadas com talhadeiras de ferro ou aço têm outra textura muito diferente do que se vê no local.        

Estrutura piramidal usada para construir pirâmide de pedra causou confusão com a 'Pirâmide da Serra do Mar'.
E aqui começa a haver dúvidas sobre o que de fato aconteceu. Segundo o proprietário, estiveram no local dois membros do IPHAN e atestaram, através de um laudo técnico, que aquelas formações seriam naturais. Será que os técnicos do IPHAN viram todas as evidencias ou somente algumas?
 
Há uma dúvida e uma contradição, porque, ao que tudo indica, um dos técnicos que visitou o local em nome do IPHAN seria o arqueólogo Plácido Cali que trabalha ou trabalhava no IPHAN e também possui empresa que prestaserviços de consultoria arqueológica.
 
Segundo reportagem de jornal, este arqueólogo teria dito o seguinte sobre o sítio de Fazenda Palmeiras, o que não deixa duvida sobre sua opinião: “Para o arqueólogo da Universidade de São Paulo (USP) e especializado nos sítios na costa paulista, Plácido Cali, essa composição é única no País. E esse achado pode revelar a presença de outras culturas, mais avançadas tecnologicamente, que as tradicionais nações indígenas que povoavam essa faixa da América do Sul. ‘Com certeza isto não é obra dos índios que conhecemos’, comenta o pesquisador”.

E em outra noticia, em 2003 foi dito: “Pirâmides da Serra do Mar são colocadas sob proteção - Reportagem da Gazeta do Povo - Área terá tratamento cientifico.
 
A policia ambiental de Natividade da Serra, município paulista situado no vale do Paraíba, já esta protegendo as ruínas do monumento arqueológico em forma de pirâmide construído na Serra do Mar há milhares de anos e descoberto recentemente. A intenção das autoridades policiais é evitar novas escavações predatórias no sítio, assegurando que a pesquisa cientifica não venha a ser prejudicada. O arqueólogo Plácido Cali, responsável por diversos projetos de pesquisa na região Rio-São Paulo informou ontem que hoje vai comunicar ao IPHAN sobre a urgência de medidas administrativas para transformar o local num espaço restrito á pesquisa cientifica. Uma das preocupações do pesquisador é a própria atividade desenvolvida na Fazenda Palmeiras que abriga um núcleo de esportes radicais muito frequentado. Além da busca por apoio do órgão federal, Cali pretende mobilizar os ambientalistas da região para acelerar esse processo de proteção ao monumento e seus arredores. ‘Temos que agir rapidamente para não haver um dano ainda maior’. Alerta o arqueólogo.”
 
É preciso fazer algumas retificações nesta notícia. O único esporte radical que acontece no local é a chegada do pessoal do rafting, que desce desde São Luiz do Paraitinga e chega no hotel, toma banho e vai embora. As pessoas nem chegam perto do sítio. Com relação à proteção do local, ninguém está protegendo nada. Muito menos, a Polícia Ambiental de Natividade da Serra. Desde que esta notícia saiu se passaram nove anos e não aconteceu mais nada.
 
O mais grave é que as noticias erradas e sensacionalistas divulgadas na internet causaram um dano enorme ao local, talvez, maior do que na ocasião da terraplenagem do terreno, que revirou todo o material.
 
Afinal, o local não é sítio arqueológico para alguns elementos do IPHAN, mas para outros é um caso muito especial? E o tal laudo feito pelo IPHAN, na realidade diz o que?
 
Alguém tem que explicar esta contradição. O problema é que o proprietário ficou numa situação difícil, receoso de ser acusado de ter depredado patrimônio arqueológico, como de fato foi acusado por alguns. E, agora interpreta o laudo do IPHAN como uma proibição de se pesquisar o local.
 
Ora, se o IPHAN disse oficialmente que aquilo não é sitio arqueológico, é porque encerrou suas responsabilidades legais sobre o assunto. Considerou que ali não há nada a proteger. Mas, o proprietário está bastante confuso e em suas próprias palavras diz: “Fui informado por laudo oficial que aquelas pedras são de formação natural, motivo pelo qual qualquer pesquisa a respeito foge às determinações oficiais [Por que?]. Sei que pareço injusto para quem está interessado em aprofundar o conhecimento do assunto, porém mais injusta foi aquela carta que recebi e que me acusou de práticas de destruição de um sítio arqueológico. Primeiro, se soubesse de antemão que era um sítio arqueológico, segundo, se tivesse mesmo a intenção consciente de que o estávamos depredando, então sim, eu poderia ser alvo de críticas. No entanto no ponto em que estão as pedras, foi fruto de remoção de terra para outras finalidades e não a intencional visando um sítio arqueológico. Diante desse fato, acho que qualquer pesquisa no local vai contra o laudo oficial de que são pedras de origem natural e portanto, qualquer pesquisa, que não reconhece esse laudo, torna-se não bem-vinda (para não dizer contrária à lei)” [A pesquisa então estaria proibida !?].

Bloco cortado apresenta uma fratura que revela a sua história recente e remota.

Está claro que o proprietário, com muito receio, ficou intimidado e interpreta o laudo erradamente. Se havia alguma curiosidade por esclarecer o assunto, ele a abandonou, com receio de complicações legais.
 
Quanto à possibilidade de que, o serviço de terraplenagem inicialmente possa ter atingido um sítio arqueológico, ninguém pode ser acusado de crime algum, porque muitos sítios arqueológicos são encontrados por meros acidentes, sendo impossível evitar um impacto inicial. E, na verdade, devemos a revelação deste sítio à iniciativa do proprietário, ao querer fazer sua construção.
 
Mas o resultado foi que o proprietário foi anulado, o sítio ficou ao ‘deus dará’ e quem quiser investigar o assunto estaria agindo fora da lei (?!).  Se alguém entender algo desta situação ridícula que se criou, explique. O sítio parece ter se tornado algo maldito. Só falta salgar o terreno e impedir qualquer um de circular no local.
 
Seria o cúmulo, que o IPHAN, além de dizer que aquilo não seria um sítio arqueológico ainda proibisse alguém de investigar o assunto. Seria a consagração da ignorância. Poderíamos dizer que seria mais um atentado contra a memória nacional. A perdurar esta situação, se faz, no mínimo, uma aberração. Estaríamos no mesmo nível da época da inquisição.
 
Vamos a deixar claro que a única pirâmide que acabou existindo no local é a estrutura de madeira que balizava o local da futura construção e que mostramos em fotografias da visita ao local. Existe de fato uma ruína soterrada naquele lugar, estendendo-se pela encosta da colina. Sem duvida, trata-se de um sítio arqueológico.
 
Estou dizendo isso porque sou arquiteto há 40 anos e a maior parte desse tempo, eu trabalhei com patrimônio cultural e também arqueologia.
 
Mas, para se ter certeza do que haja ou não no local, é preciso ampliar a pesquisa, ao menos de superfície. Discutir o assunto sem tomar essas medidas é perder tempo.  
 
Toda esta confusão está prejudicando uma pesquisa que deveria ser feita. Parte da desmoralização do assunto se deve à expectativa das pessoas em geral por assuntos sensacionalistas e mal explicados, que acabam desvirtuando sua essência. E quando se tenta colocar o assunto em planos mais realistas já não há interesse.
 
Ninguém saiu ganhando com isso. Mas ainda há tempo de retomar o caminho correto. Os interessados em esclarecer o assunto devem se mexer.
 
Existe um toque de ridículo e absurdo no caso. E tudo isso vai ficar assim mesmo?
 
Aqui estão algumas fotos do local, julgue por si.

* Carlos Perez Gomar é arquiteto e pesquisador arqueológico, nascido em Montevidéu, Uruguai e radicado no Brasil desde 1958.
  
- Imagens: Carlos Perez Gomar / Júlio Ottoboni / Google Earth.

- Produção: Pepe Chaves.
© Copyright 2004-2012, Pepe Arte Viva Ltda.
 
 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Natividade da Serra (2): Nas supostas ruínas de Natividade da Serra

Relatório da visita à chamada ‘pirâmide’ da Serra do Mar, em Natividade da Serra.

 
  
Por Carlos Perez Gomar*
De Natividade da Serra-SP
12/07/2012 
Blocos em posição vertical, mas que poderiam ter sido algum tipo de pavimentação.

Em sequência à nossa análise sobre as ruínas encontradas na Fazenda Palmeiras, no município de Natividade da Serra-SP, fizemos uma rápida visita ao local, quando surgiu uma oportunidade não prevista.
 
Não era o melhor momento, nem pela época do ano, nem pelo tempo disponível. Sabíamos que não seria possível obter muitos resultados consistentes de maneira tão rápida. Mas seria um primeiro contato com o local, e isso já valeria a pena. Pretendemos dar continuidade a este assunto até que se possa esclarecer algo mais.
 
Este assunto tem sido desde seu início tratado com irresponsabilidade. De maneira nenhuma este sítio seria uma pirâmide, mas sim, um sítio arqueológico - mesmo que se trate de alguma construção do século retrasado. As pessoas que perguntaram sobre este sítio foram tratadas com desdém por se interessar em um assunto que parecia fugir dos padrões politicamente corretos da arqueologia consagrada no Brasil.
 
E quase ninguém se dignou a responder suas perguntas. Inclusive, pela pouca experiência em arqueologia de arquitetura que temos no Brasil. O terror acadêmico em se envolver é pior quando a construção foge aos padrões reconhecidamente coloniais. 
 
As dificuldades para chegar ao local, acabaram sendo, a distância e os engarrafamentos na saída e na chegada ao Rio de Janeiro. Viajamos 800 quilômetros do Rio de Janeiro à Natividade da Serra e demoramos por volta de 15 horas  na estrada. Esses percalços abreviaram mais o tempo útil para desenvolver as tarefas no local. Quem segue a partir de São Paulo percorre distância menor. 
 
Existem duas opções de chegada ao local. Pela Rio-São Paulo (Rodovia Presidente Dutra) e em Taubaté acessar a Rod. Osvaldo Cruz, até o km 57, onde, à direita, existe uma discreta entrada a uma estrada de terra com 15 km. Chegando-se finalmente a Fazenda Palmeiras.
 
A outra opção mais pitoresca seria ir pela estrada Rio-Santos até Ubatuba e então, tomar a rodovia Osvaldo Cruz, subindo a serra, porém, esse trecho (antigamente chamado de Estrada da Quebra Cangalha) é bastante sinuoso e com curvas muito fechadas além do declive. Nós fomos pela Via Dutra e voltamos pela Rio-Santos.
 
Passamos menos de 48 horas no local, o que foi, em parte, frustrante. Localizar vestígios, reconhecer o local, tirar fotografias, desenterrar vestígios e fazer observações gerais nesse curto período de tempo não permitem aprofundar o trabalho porque éramos apenas duas pessoas.
 
Formação similar a uma pavimentação

Disposição dos blocos: à esquerda estão semi enterrados quando da atual visita;
à direita estes aparecem desterrados em imagem tomada alguns anos antes.
        
Existem vestígios pouco explicados na colina que foi classificada como “pirâmide”. Na base desta colina, estão soterradas as pedras que aparecem na foto acima. Na ocasião, nos limitamos a localizá-las e medimos a parte aparente. Anteriormente, fora dito que todas haviam sido removidas. Não é verdade. Ao que parece estão quase todas lá. Compare com as fotos da antiga escavação em 2003, abaixo.
 
As que aparecem nas fotos de cima são as da extrema direita nas fotos de baixo; exatamente as mesmas pedras.  O que aconteceu é que voltaram a ser soterradas. Esta formação não tem nada a ver com uma pedreira como alguns especulam. Em qualquer lugar do mundo e em qualquer época isto é uma tentativa de pavimentação, estranha, sim, porque seria mais lógico colocar as pedras em sentido horizontal. No entanto, houve algum motivo para fazer isto como se apresenta. Pedreiro nenhum nos séculos passados faria a bobagem de fazer uma pavimentação com as pedras nessa posição (sentido vertical) ainda que fosse pouco inteligente, se não tivesse uma boa razão. A altura média destas pedras é de 45 cm.
 
Aqui há uma lógica que pretendeu atingir algum objetivo que desconhecemos. Posso arriscar uma hipótese. Se o terreno não era muito firme, e parece que não era, as pedras colocadas na horizontal, com qualquer umidade proveniente de chuvas ficariam passiveis de se movimentarem.
 
Já na posição em que estão, custariam muito mais a dançar sobre o solo ou a desnivelar-se. Outra coisa a observar é que esta formação estava bem enterrada. O barranco à esquerda tem mais de 2m e altura. Repare a pedra mais larga ao fundo, que tem boa altura, foi colocada na posição horizontal, porque tendo tal altura não faria diferença.
 
Haveria a hipótese de que essa pavimentação fosse para a colocação de uma peça de artilharia, cujo peso necessitaria de um chão firme. Nesse caso confirmaríamos que o sítio seria da época colonial. Mas não vemos este ponto da colina como o mais apropriado para isto. Evidentemente que quanto mais acima da encosta, seria melhor. Em última analise, podemos supor que essa pavimentação seria para suportar razoável peso.  

Na ocasião em que levaram a escavação até maior profundidade (imagens à direita, acima), notou-se que as pedras aparentam mais regularidade. Nas duas fotos são as mesmas pedras. Observam-se os blocos no fundo, na frente da aresta da estrutura piramidal.
 
Ampliando a fotografia (ao lado, da imagem inferior) se nota que as pedras são propositalmente quadrangulares e, com certeza, pertencentes à alvenaria de algum muro, parede ou até mesmo, à pavimentação. É evidente que o trabalho do trator no local misturou os vestígios. Esta formação das fotos acima, de maneira alguma seria natura, e isso é incontestável.
 
Croqui da disposição ordenada das pedras mostradas nas fotos acima.

O posicionamento das pedras da parte de cima do croqui corresponde às da extrema direita das fotos acima. Faltam pedras que com certeza foram arrancadas pelo trator. 
 
Desta maneira, a formação das fotos não é uma rampa como parecia nas fotos antes divulgadas e tomadas em 2003 e 2009. Mais se assemelha a uma pavimentação bastante irregular, porém, quase horizontal e que se estende para dentro da colina ou para os lados. Haveria que segui-la, para se confirmar.
 
Aquele bloco maior que em artigo anterior estimávamos como tendo 1.80 m, na verdade, tem 1.33 m de comprimento e sua largura é de 30cm, sua altura é de 60 cm. Esse bloco pesa 622 quilos. O havíamos estimado seria maior porque achávamos que havia um cabo de enxada atrás dele. Não era uma enxada, mas sim, uma alavanca.
 
Já as outras pedras da foto são bem menores. Mas a disposição é intrigante. Haveria que verificar, se havendo veios, estes se prolongam de uma pedra para outra, nos confirmando que faziam parte de uma mesma camada. E nesse caso, poderia confirmar se trataria de uma formação natural. Mas não é o que está parecendo. É muito provável que na ocasião do aplainamento, muitos restos de algum muro tenham sido destruídos e as suas pedras espalhadas. Provavelmente, podem ser as pedras espalhadas logo abaixo do platô da estrutura piramidal. Estas pedras poderiam fazer parte de um muro ciclópico desmoronado.

Curioso aglomerado de pedras soltas que poderia pertencer a uma construção no passado.
   
 
Subindo desse ponto à encosta da colina [imagem acima] há muita pedra solta, mas não vimos nenhuma muito grande e a maioria não tem formas sugestivas de trabalho humano. Mas há muitos blocos com formas e cortes quadrangulares que se espalham até o topo da colina.
 
É muito provável que no passado daquele local houvesse uma construção que usava tanto pedras aparelhadas como pedras em bruto ou pouco aparelhadas. E, pela textura de superfície que as pedras mais regulares apresentam, podemos afirmar que, se foram cortadas por mão humana, isso se deu faz muito tempo, porque expõe uma camada de alteração superficial de cor amarronzada.
 
Interiormente estas pedras são da cor cinza chumbo e um corte mais recente mantém um tom próximo ao cinza, que é a cor original da rocha. Não é o que vemos aqui. Seria altamente interessante examinar todo esse aglomerado de pedras que se encontra na base da colina para determinar melhor sua origem.  
 
Um muro de pedras irregulares depois de desmoronado fica difícil de saber se era muro ou pedras soltas dispostas pela natureza. O capim estava bastante crescido e era difícil ver as pedras mais interessantes. A época certa para esta observação seria em tempo frio e seco (junho e julho), quando o capim está seco ou queimado.
 
Lajes aparentemente padronizadas
 
Detalhes de uma pedra cortada em formato quase preciso
e espessura regular encontrada por esse autor no local.
 
Não conseguimos localizar todas as pedras das fotos mostradas nos relatórios anteriores, mas achamos pelo menos uma das que se assemelham a lajes, a qual media 0.75 por 0.55 por 16 cm de espessura e, consequentemente, teria um peso de 160 quilos.
 
Acima temos uma das lajes quase retangulares. Digo quase, porque sempre há alguma diferença entre as dimensões dos lados opostos. No entanto é evidente que seguem algum padrão. O que chama a atenção é que, parece, a sua superfície teria sofrido o ataque dos elementos durante muito tempo.
 
Por outro lado, não tem cantos vivos, são arredondados. Não foram feitas a cinzel. Ou são naturais (o que acho impossível, porque há várias similares) ou foram obtidas por percussão com martelo de pedra dando uma superfície similar a um apicoado.
 
Falando com menos compromisso, podemos dizer que suas superfícies foram polidas, claramente não foram obtidas a golpe de talhadeira.
 
Estas lajes mostradas nas fotografias tomadas alguns anos antes não foram localizadas durante a atual visita.
 
Outras peças de lajes similares que não pudemos localizar ainda foram fotografadas em 2009 [imagens acima]. Sabemos qual é a área onde devem estar, mas com o capim alto é difícil achá-las, assim, haveria que se fazer uma varredura bem ampla. Estas imagens de 2003 (acima) mostram pelo menos mais cinco lajes aparentemente do mesmo tamanho, padrão, proporções e com a mesma espessura (em torno de 16 cm), possivelmente iguais a que mostramos na foto anterior.
 
Está claro que tudo isso não é obra da natureza. Aqui, fica evidente que houve um trabalho de estereotomia, ainda que rústico, e não apresenta traços de ter sido efetuado com talhadeiras. Destacam-se seus vértices arredondados. 
 
Dizer que estas lajes são naturais é, forçar a lógica. No entanto, é preciso analisar um aspecto importante. Essa padronização de lajes e blocos, na America do Sul só foi uma constante durante o período da expansão do império inca, entre 1438 e 1533.
 
Cabe a pergunta: se blocos elaborados 600 anos atrás teriam sofrido a alteração superficial que se observa no bloco embaixo da estrutura piramidal - cinza chumbo por dentro e enferrujado por fora. Ou se estas lajes e blocos são muito mais antigos e nos coloca numa situação completamente fora de contexto, onde não podemos especular mais nada, pois estaria fora da lógica arquitetônica das épocas e culturas que nos conhecemos e entre quais as poderíamos situar.
 
Por outro lado, a arquitetura dos primórdios da colonização europeia na América do Sul e arquitetura inca do século XV são praticamente contemporâneas ainda que apresentem técnicas, ora sejam parecidas, ora bem diferentes, no caso específico de muros e pavimentações.
 
Estrutura piramidal que possivelmente deu nome ao sítio de 'Pirâmide da Serra do Mar'.
A estrutura piramidal que se vê na foto acima é constituída de peças de madeira com 5.5cm por 11cm de seção transversal, bem fracas por sinal. A muito custo se aguenta em pé, e uma das pernas (vértice da pirâmide) está cedendo e cairá em breve.
 
Evidentemente que a razão da montagem dessa estrutura é apenas esotérica. Na sua origem está um esquema para guiar a construção de uma pirâmide de pedra que, seria a intenção original, segundo nos disse o proprietário do terreno.
 
Em relatórios anteriores publicados na internet sobre as ruínas de Natividade da Serra se diz que aquela estrutura piramidal teria servido para desmontar uma ruína. Isso não seria possível, porque esta não aguentaria o peso de uma pedra como a que está embaixo e nem mesmo uma menor.
 
Além disso, se alguma pedra foi mexida, teria sido com a pá de um bulldozer, por ocasião do aplainamento de parte do terreno. E, de fato, uma pedra igual a essa que está embaixo da pirâmide foi levada e colocada na entrada da fazenda como decoração.
 
Mas, infelizmente, isso só me foi comentado depois de eu ter ido ao local e por isso não a medimos para ver se segue um padrão igual à que está embaixo da estrutura piramidal. Fica para a próxima visita.
 
A pedra que está embaixo da estrutura piramidal não tem exatamente as dimensões que os relatórios anteriores mencionam e, inclusive, eu mesmo adotei para compará-las com as arquitraves do Templo das Três Janelas. Na verdade é ligeiramente irregular, ainda que possa servir de uma boa arquitrave de porta ou janela; e até arriscaria a dizer que foi esse seu uso.
 
O grande bloco embaixo da estrutura piramidal
 
Bloco que se encontra em baixo da estrutura piramidal possui mais de um metro de extensão e apresenta cortes quase precisos, além de uma fratura que revela a sua história recente e remota.

Este bloco acima não é o único com estas características e há outros similares. Note-se, na quebradura ocorrida durante a escavação, a alteração de coloração da superfície do bloco em virtude do tempo de exposição aos elementos. Há profunda alteração na parte de cima (superfície original do talhado do bloco) e pouca alteração na parte de baixo, onde sofreu uma quebradura posterior e, com certeza, muito mais nova que a talha original do bloco.
 
Nota-se que a camada esbranquiçada que ocorre em cima, embaixo não existe. Resumindo, a espessura da camada alterada em cima é muito maior que em baixo. Portanto, esse bloco já teve esse vértice e outros que estão faltando do outro lado, possivelmente, quebrados em algum desmoronamento da estrutura em época remota  e muito  posterior à talha original do bloco.
 
Observa-se que nesse bloco há fraturas novas (possivelmente ocorridas na movimentação, quando o terreno foi aplainado por máquina), mostrando a cor cinza chumbo, como em outras partes. Ou já era assim, irregular, ou sofreu quebraduras há muitíssimo tempo, igualando toda a cor da superfície enferrujada. Observem-se os vértices arredondados como as lajes anteriores.
 
Esse autor e detalhes do grande bloco de pedra talhada mostrado acima; aqui visto de distintas posições.

A camada superficial alterada até boa profundidade em toda a pedra mostra que este bloco foi esculpido há muito tempo e não parece ser coisa de 100 ou 200 anos. Quando ele foi achado estava enterrado por ali perto e foi colocado nessa posição. Se nós aumentamos a foto, se nota o que se assemelha a um acabamento entre apicoado (pequenos pontos) e polido.
 
Suas medidas reais são: 1.66 m de um lado e 1.62 do outro (no comprimento) e 0.70 e 0.57 de largura. Sua espessura é de 34 cm em média. Assim, fica claro que só serviria em uma parede de 0.70 cm de espessura. Em uma das fotos feita por ocasião do aplainamento do terreno, ao fundo aparecem duas peças similares a esta, mas que se encontram semi enterradas. Elas devem estar no mesmo local e valeria a pena localizá-las.
 
Estas grandes peças iguais às das fotos, se foram talhadas por mãos humanas, é muito provável que funcionassem como arquitraves de vãos. Com certeza não eram pilares. Este bloco também seria pouco prático para servir de “grande tijolo” em uma parede. O peso desse bloco revisto, com suas medidas reais, ainda é de 913 quilos e pode ser considerado enorme.

Grande quantidade de pedras soltas em uma encosta, algumas apresentam cantos retos.

Notam-se outras pedras com cantos retos, mas estando em grande parte enterradas, não dá para ver se seguem um padrão de paralelogramo em todas as direções. A pedra da esquerda está encostada acima e as da direita perto da base na estrutura piramidal.
 
Não se pode, a priori, afirmar, se tratar de um mero amontoado de pedras, sendo a maioria irregular, pode ou não ter sido um antigo muro. No entanto, esse monte de pedras que se vê na foto da direita pode ter sido parte de um muro desmoronado, sugerindo que quando aplainaram o terreno as jogaram para baixo.
 
Se esse for o caso, deve haver outras partes desse muro enterradas e em bom estado ainda. O problema é que varias pessoas estão se negando a responder perguntas e assim fica difícil seguir as pistas do que ainda possa haver no local.
 
Continuo notando uma total falta de interesse e compromisso de todos os envolvidos neste caso, tanto pessoas como instituições. E está ficando cada dia mais difícil continuar esta pesquisa.

Comparações com outros locais sulamericanos
 
Pucará: muralhas erguidas como fortalezas pelos antigos povos americanos.

Acima vemos um antigo muro do Pucará da colina chamada “A Muralha”, no Chile. Um muro desse tipo quando desmoronado é difícil de se identificar como obra humana. Na imagem de baixo temos o que sobrou do muro totalmente destruído. Apenas um pouco da fundação do que fora a sua base se mostra emergente. Alguém poderia dizer que se tratasse apenas de um afloramento rochoso.
 
Comparações entre o esquema da Waka de Chena, no Chile (à esquerda) com o local do sítio de Natividade da Serra, visto em imagem aérea. Esta comparação é para efeito de orientação em relação as datas de solstícios e equinócios.

Acima temos um esquema da Waka (santuário e observatório) da colina de Chena, no Chile, com as posições do nascimento e ocaso do Sol em diversas épocas. Sua inserção aqui é para orientação melhor do sítio, comparando as direções. Essas direções eram balizadas por portas e janelas colocadas em locais exatos.   
    
O divisor de águas da colina está exatamente na direção da linha do solstício de inverno (a linha vermelha) sua principal encosta segue esta direção. A “pavimentação” que vimos no início está na base deste divisor de águas, ao lado da parte que aparece como um retângulo verde claro. Citamos isto apenas como uma curiosidade, por enquanto.
 
A linha amarela representa o norte. As setas do lado direito do desenho acima representa os pontos de nascimento do sol nos solstícios e equinócios, solstício de inverno (em vermelho), solstício de verão (em azul). E em verde, a linha de equinócios. O nascimento do Sol é do lado direito. A imagem de um animal é a forma das muralhas da Waka da colina de Chena no Chile.
 
Colocamos lado a lado com o sítio para mostrar a orientação do mesmo em relação aos solstícios e equinócios. Não é o caso que tenhamos achado alguma razão específica, mas pode vir a ser interessante analisar este fato. Se o local é um sitio antigo não identificado, não sabemos a que tipo de cultura possa pertencer, e é preciso destacar qualquer fator que possa ser relevante.  
                                     
Comparações entre o esquema de um pucará chileno (à esquerda) com o local do sítio de Natividade da Serra (imagem aérea).
Acima, temos uma particularidade, um pucará [fortificação erguidas por antigos povos] conhecido como “A Muralha“, no Chile. Comparamos sua localização e disposição com a situação do sítio paulista em questão.
 
O tracejado em vermelho indica onde ficava uma antiga lagoa, hoje seca, que protegia aquele flanco. Em branco vemos os muros fechando o outro flanco, indo até a lagoa. O traçado das muralhas desenha uma ave em vôo, propositalmente. A colina do sítio que estamos analisando também está às margens de um açude que, com certeza, sempre existiu e foi até maior, possivelmente chegando até a colina. Portanto fechava todo o flanco leste.
 
E, seria o caso de especular se esse açude já não foi uma grande enseada do rio Paraibuna em épocas passadas, quando tinha muito maior volume de água. Não esqueçamos que existem valas pelo lado oeste e norte e pelo lado sul é muito íngreme. Poderia ser uma posição defensiva tal como um pucará.
 
Mas, parece mais um tipo de local cerimonial com uma waka ou huaca, mas por enquanto são apenas suposições. Na arqueologia brasileira consagrada não existe estes tipo de sítios, mas isso não deve nos deter, até termos evidências do que é realmente o sítio, e se é um sítio arqueológico de fato. E como este sítio estaria totalmente fora de contexto em relação à arqueologia da área poderíamos levantar a suspeita de que quem o construiu esteve somente de passagem, ou não seria uma população autóctone dessa área. 
         
Também devemos deixar claro que, os pucarás e as huacas não surgiram com o Império Inca, já eram hábitos de várias populações americanas antes dos incas.  Estamos de acordo em que no Brasil não há antecedentes deste tipo de sítio. Ou, pelo menos ainda não foram registrados.
 
Estamos apenas levantando possíveis evidências que ajudem a esclarecer o assunto. E fazemos comparações com casos sulamericanos. Não temos convencimento de nada, mas devemos desconfiar de tudo. A prova arqueológica só poderá vir com escavações técnicas. E as respostas poderão ser bem diferentes de tudo o que especulamos.
 
Entretanto, descartar o referido sítio como sem importância, antes de se realizar maiores sondagens seria um ato de irresponsabilidade. Apesar de que, já houve quem julgasse tudo ali como obra da natureza.
 
Na verdade, por enquanto, temos pouco material para avaliar se houve mesmo uma construção nesse local e, caso positivo, que tipo de construção seria aquela. Mas aqui, em princípio, há algo diferente.
 
O terreno em volta do sítio
 
Vista parcial do lado leste da propriedade, e parte a colina do sítio em questão.

Na imagem acima temos a vista para o lado leste e o açude. Na foto seguinte, a vista com a colina, olhando para sudoeste. Note-se que está separada por uma vala ou garganta. Em primeiro plano temos a estrutura piramidal e no topo da colina, pode-se ver a linha de transmissão elétrica que passa pelo local.
 
O terreno da colina está remexido superficialmente por várias causas. Algumas cabeças de gado pastam no local e há muitos montes de estrume, este tipo de atividade causou uma alteração superficial do terreno, inclusive, deslocando as pedras menores.
 
Evidentemente, animais de 300 quilos transitando no local vão misturar o solo. Se havia uma construção, em épocas passadas - e é o que parece - isso deve ser investigado. Constatada, é possível que ela teria sofrido primeiro a destruição causada pelas gerações de árvores nascendo e morrendo e, posteriormente, o uso do terreno como pastagem.
 
Se essa construção não era composta com argamassa resistente, com o tempo se transformaria num simples amontoados de pedras, parte soterrada e parte solta à flor da terra. E isso é o que parece, ao menos nas fotos mais antigas. Há indícios que suas pedras já vêm sendo usadas em outras construções faz tempos.
   
À esquerda, vista da cachoeira da Porciana situada a 250 m do sítio e, à direita, um acidente ainda não esclarecido  no terreno perto do sitio principal, assinalado à esquerda, parecendo estrutura enterrada.
 
Acima vemos o local onde na fotografia aérea há uma sinalização enfatizando uma alteração do solo. Estivemos no local e pudemos ver que se trata de uma alteração do terreno criando um barranco. Do lado leste o terreno é mais baixo (lado direito), aproximadamente 1,5m. Não foi possível verificar se há algum muro enterrado ou não, que possa ter causado essa alteração.
 
    
No local acima se localiza a vala e o riacho que separa a colina pelo lado nordeste. À direita está a continuação da vista da colina em direção leste, vendo-se a área do açude e áreas em outrora possivelmente inundadas pelo açude. A alteração do terreno mostrada na fotografia aérea está um pouco à frente da touceira de bambu mais volumosa. Na foto acima à esquerda, vista da cachoeira da Porciana desde a colina do sitio.
 
 
Logo acima temos a vista em direção leste um pouco mais à direita, ao fundo o Hotel Fazenda. A foto da direita é continuação da esquerda.
 
 
Aqui está a vista desde o Hotel em direção a oeste. No canto esquerdo, no meio da foto, está a pequena colina do sítio, em um plano intermediário. Na foto da direita vê-se a encosta suave da colina que desce em direção leste. O curioso é que parece ter uma superfície muito regular de cima até embaixo.
 
O local em si tem algumas particularidades que valem a pena ressaltar. É uma colina relativamente baixa, mais bem é um contra forte de outra maior, atrás dela (lado Norte e lado Oeste). Fica separada por uma vala ou fosso desse morro maior. Haveria que abrir o mato que cobre essa depressão para poder ver o terreno.
 
Essa vala se prolonga até encontrar com o riacho que desce da cachoeira da Porciana, que se situa ali perto, a uns 250m. A colina vai subindo em direção sudoeste e chegando ao topo, cai abruptamente, escondida numa mata de maior porte, onde já não é capinzal.
 
Desde o topo se observa que não há vista ampla em todos esses lados descritos. Ou seja, o local está discretamente disfarçado, sendo esses lados os mais íngremes. Já o lado sudeste e leste têm vista bem mais ampla ou até totalmente despejada. Justamente esses lados são os menos íngremes. A visão desse lado chega a mais ou menos a um quilômetro, até as margens do rio Paraibuna e além.
 
Mas, no meio está o açude, que já deve ter sido muito maior. Foi passada a ideia de que o rio Paraibuna está apenas a alguns metros do sítio em questão. Essa informação não estava correta, pois está a pelo menos 800m de distância. É o caso de levantar a hipótese de que, se o açude chegava até o sítio, a construção que aqui havia possa ter sido destruída em uma grande cheia do rio Paraibuna em época remota.
 
Se há alguma construção em todas essas encostas, é difícil de dizer. À flor da terra não se nota nada. Mas cabe levantar a dúvida de que possa haver elementos construídos e desmoronados, que estariam distribuídos na forma de um talude natural. Só se poderá saber isso, se for abertas trincheiras teste em alguns pontos por volta de toda a colina, em sentido transversal às curvas de nível.
 
Em relação ao terreno circundante, do lado leste, a colina não tem mais de 40m de altura. Considerando sua situação em épocas passadas ou pré históricas (anteriores a 1500) seria um local razoavelmente apropriado para instalar alguma pequena fortificação ou estabelecimento.
 
Faltaria sabermos o motivo para se estabelecer ali. Mas, pode ter havido. Entre tais motivos, poderia ter sido rota de passagem para, sabe-se lá quem ou para onde. E nesses casos se faz um refúgio num local razoavelmente apropriado, mas que não tem nenhuma particularidade especial, servindo como ponto de apoio. Poderia ser este o caso, entre outras possibilidades.
 
Mas, acredito que se houvessem ruínas significativas nessa colina, estas seriam visíveis na fotografia aérea. E não se nota nada de especial. Literalmente, é preciso ir mais a fundo. Contudo, seria possível que este sítio tivesse sido parte de outro, mais distribuído pelos terrenos circundantes. 
 
Existe facilidade de abastecimento de água através do riacho que forma a cachoeira da Porciana, que é abastecido por outro açude em região mais alta e funciona como um grande reservatório que abastece esse riacho de forma perene. Esta é uma condição importante para alguém se estabelecer no local. Esse açude mais alto está localizado no cume como se fosse uma cratera e funciona como uma enorme caixa de água. Nos mapas pode ser visto do lado norte ao sítio.
 
 
Acima temos a vista da área com o hotel na extrema direita, o sítio no meio (retângulo verde claro), no fim da parte mais fina do açude e o outro açude no cume da elevação, que alimenta a cachoeira da Porciana.  
 
O rio Paraibuna tinha antigamente abundancia de peixes, portanto sustentaria alguma população que supostamente ali se fixasse. O rio está na extrema direita, logo atrás da estrada.
 
Entre as curiosidades do local me foi dito que há abundância de cristal de quartzo, Não chegamos a vê-los, a não ser alguns, na fazenda, dispostos em círculo. Foi comentado que haviam retirado pedras com as formas mais sugestivas do local. É possível que alguns o tenham feito, mas deviam ser pedras pequenas que estavam na parte mais baixa da colina. 
 
As lajes que aparecem nas fotos e que nós medimos pesam de 160 quilos para cima e estão na parte alta da colina. Não é fácil removê-las, e muito menos trazê-las para baixo, se isso não for uma prioridade.
 
Aqui tocamos um ponto importante. Foi levantada a hipótese de que alguém tenha cortado pedras para uso em outro local, usando blocos no alto da colina.
 
Na verdade não há grandes blocos no alto da colina, que era o que parecia nas fotos de 2009. Porém as lajes mais sugestivas estão no alto da colina. Isso nos leva a crer que faziam parte de algo que havia no alto da colina e que exigiu pedras mais regulares. Se alguém quisesse cortar lajes para uso, não precisaria fazê-lo no alto, pois embaixo também há muita pedra solta.
 
E, chegamos a em outro ponto importante. Se aquelas lajes não são naturais, e foram cortadas por mãos humanas, são restos de alguma construção, evidentemente. Mas há quem ache que aquelas pedras em padrão e em diretriz de paralelogramos sejam apenas naturais e fruto da clivagem natural da rocha.
 
Pelo o que podemos ver nas lajes, não há vestígios de cortes recentes ou marcas de corte com talhadeiras. A única maneira de chegar a uma conclusão será abrir trincheiras teste no topo da colina e, passando a camada de solo a ser revolvida, deve-se procurar uma razão arquitetônica nas pedras que porventura aparecerem. Ou então, procurar detectar fundações que possa haver.
 
Devemos lembrar que uma construção de pedras, em parte irregulares, sem argamassa, quando desmorona se transforma em algo difícil de definir se tem origem natural ou artificial. Mas, em principio, um monte de pedras juntas e soltas podem ser restos de uma alvenaria rústica. A não ser que tenham sido acumuladas por torrentes de água.
 
A ideia de que as lajes do local possam ter sido restos de material para as pontes da fracassada estrada de ferro Taubaté-Ubatuba pode ser descartada, com certeza e tranquilidade. O local não seria fonte abundante de extração de pedras. E as obras da estrada de ferro não chegaram nem perto daquela região.
 
Depois de nossa visita ficamos com a certeza de que tudo é resultado de intervenção humana e, seguramente, houve uma construção no local em tempos passados. 
 
A topografia do vale
 
Relevo na região do hotel fazenda e suposto sítio arqueológico.
 
Acima temos imagens que mostram a topografia do vale onde se situa o açude e o provável sítio arqueológico. Observe-se na imagem à esquerda, o rio Paraibuna e a grande área (quase central) relativamente plana, onde está localizado o açude.

No passado, quando havia maior volume de água, esta área poderia ter sido ocupada por um açude muito maior ou ter sido uma enseada natural do rio Paraibuna. O suposto sítio estaria localizado à beira do que seria tal enseada. Entretanto, haveria que verificar se os depósitos geológicos situados entre o hotel atual e o rio Paraibuna confirmam essa hipótese. 

Ampliação da área relativamente plana, onde se localiza o hotel e o açude.
Alguns dados informativos sobre o local
 
As condições de visita ao local foram facilitadas pelo apoio que nos deu o proprietário do Hotel Fazenda, nos permitindo hospedar nas instalações do próprio Hotel Fazenda, que naquele momento não estava muito frequentado.
 
No entanto, não há facilidades para alimentação fora das épocas de grande movimento turístico nem no Hotel, nem nas imediações, onde só existem três bares dos quais um, serve refeições. Não há padaria nem supermercado no local. Dois quilômetros adiante se localiza o bairro de Vargem Grande e ali tem ou tinha uma padaria e um local para fazer refeições. 
 
Foi dito que, pelo fato de ser o local um hotel fazenda haveria atividades radicais sendo desenvolvidas e deteriorando o sítio que pode ser de interesse arqueológico. Não observamos nada disso. Não há nenhuma atividade radical no sítio nem parece estar a mercê delas. Na verdade ninguém parece se importar muito com o local e, muito menos, alguém o está estudando. O que para nos é lamentável.
 
Esta área pertenceu a uma fazenda maior que, posteriormente, foi dividida. Em épocas passadas, antes da divisão, basicamente se explorava a agropecuária. Não pude levantar informações fidedignas sobre se houve cultura de café, o que poderia fazer ligação entre secagem de café em terraços pavimentados com lajes de pedra.
 
E nesse caso as lajes achadas no sítio poderiam ter sido restos de material destinado a esses supostos terraços. Mas não me parece que seja o caso. Também é o caso de se pensar se alguém faria lajes para terraços de secar café com o peso de 160 quilos cada uma. Uma laje muito menor seria suficiente. Portanto a hipótese de ser uma estrutura criada no período colonial é muito fraca e só vai satisfazer pessoas que não foram ao local.
 
E posso garantir que uma visita ao local mesmo de quem já tenha tido informações e imagens da região antecipadamente, como foi meu caso, não é suficiente para elaborar uma teoria. Creio que, por enquanto, estamos na estaca zero.
 
Conclusão final
 
Segundo o proprietário do terreno e do hotel fazenda, o IPHAN esteve no local e expediu um laudo técnico. E, aqui começa a haver dúvidas sobre o que de fato aconteceu.
 
Dois membros do IPHAN atestaram que aquelas formações seriam naturais. Será que os técnicos do IPHAN viram todas as evidencias ou só algumas?
Mas, porque outro arqueólogo se manifestou assim sobre o mesmo sítio? “Para o arqueólogo da Universidade de São Paulo (USP) e especializado nos sítios na costa paulista, Plácido Cali, essa composição é única no País. E esse achado pode revelar a presença de outras culturas, mais avançadas tecnologicamente, que as tradicionais nações indígenas que povoavam essa faixa da América do Sul”.  Comentou o pesquisador. “Com certeza isto não é obra dos índios que conhecemos”.
 
E, evidentemente, a reportagem da Gazeta do Povo, noticioso de Curitiba, datado de 29 de fevereiro de 2004 insinua uma pirâmide esquematizada em quadriculas, mas acabou por moldar uma imagem equivocada do sítio em questão.
 
Jornal noticiou o sítio associando-o a descoberta de uma pirâmide no Brasil.
 
Quando uma construção em encosta desmorona, toma a forma de um talude que alguém pode tomar pelo lado de uma pirâmide. E é por isso que tantos vêm pirâmides em vários morros brasileiros, ainda que algum possa ser de fato, uma construção soterrada nesse formato.  
 
Presumiria que possa haver existido algum monumento de menor porte no topo da colina, construído com cantaria de acabamento mais sofisticado. Mas, ainda faltaria explicação para as formações do pé da colina e os grandes monólitos que lá existem. No entanto pelo que pude ver, há vestígios de uma construção ou construções, na colina do sítio. Desconfio de que possam existir outras nos arredores e, inclusive, na mata próxima.
 
Não há muita lógica atribuir este sítio a passagem de tropeiros, viajantes ou bandeirantes pelo local durante o período colonial, porque eles não se dariam o luxo de padronizar pedras para o quer que fosse, e muito menos as poliriam. Quando digo polidas, quero dizer que suas superfícies foram obtidas com instrumentos rombudos e não de corte fino. E estes instrumentos poderiam ser pedras mais duras.
 
Com certeza as pedras teriam cantos, arestas e lascas mais vivas, se resultado do trabalho de talhadeiras. Pessoas que não viram as pedras de perto, somente pelas fotografias as classificam como “coloniais”. Este tipo de raciocínio simplista, avesso à pesquisa, não ajuda.
 
Por efeito, a maioria das pessoas ao ver pedras, em alguma ruína soterrada no Brasil, vai logo a tachando de “ruína colonial”. E assim, podem estar sendo cometidos muitos erros. Inclusive, até um arquiteto amigo meu, que viu as fotos, as tachou com certeza de “coloniais” - e ele já ocupou importante cargo no IPHAN.
 
É evidente que nas fotos não se consegue visualizar totalmente o tipo de textura destas superfícies. Nota-se também que quem elaborou estes blocos e lajes tinha uma “razoável displicência” com os paralelogramos perfeitos, o que nos faz desconfiar que não se trate de europeus ou brasileiros dos últimos 500 anos. 
 
Por outro lado, tropeiros, viajantes ou bandeirantes, como queiram chamar os passageiros, provavelmente teriam ficado perto do rio e não a 800m de distância. O sítio ganha mais lógica e sentido se na ocasião em que foi usado estivesse em uma enseada do rio, que naquela ocasião chegaria até ali. E, portanto, estaríamos falando de uma época remota, nos primórdios, ou antes, da descoberta do Brasil.
 
Entrementes, que partes destas ruínas foram destruídas, é quase certo, por inabilidade ou desconhecimento. Muitas perguntas minhas ficaram sem resposta porque várias pessoas não quiseram falar muito. Como começou toda a história da descoberta deste sítio e o que de fato aconteceu não está bem explicado e, possivelmente, nunca saberemos. Mas ainda está em tempo de salvar o local para uma pesquisa mais aprofundada. Seja ele o que for.


* Carlos Perez Gomar é arquiteto e pesquisador arqueológico, nascido em Montevidéu, Uruguai e radicado no Brasil desde 1958.
   - Reportagem concluída em 10 de fevereiro 2012.
 
- Imagens: Carlos Perez Gomar / Júlio Ottoboni / Google Earth.

- Produção: Pepe Chaves.
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