terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Pedra da Gávea (2): Relatório sobre a Inscripção da Gavia (1839)



RELATORIO
SOBRE
A INSCRIPÇÃO DA GAVIA

MANDADA EXAMINAR PELO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRAZILEIRO

(Revista do IHGB, tomo 1, n. 2, segundo trimestre, 1839, pp. 76-81)

Senhores. — A commissão encarregada pelo Instituto Historico e Geographico para analysar e copiar a inscripção, que se acha gravada no morro da Gavia, transportou-se ao lugar, e não se poupou aos meios e fadigas, que uma primeira excursão demanda, para obter-se um resultado digno de sua missão; e vem hoje perante o Instituto Historico e Geographico dar conta do que viu e observou, assim como trazer uma copia fiel da pretendida inscripção, d´esse monumento que pertence á classe d’aquelles que Mr. Court de Gibelin colloca no seu « Mundo Primitivo », e que tem chegado á recentes gerações envolvidos no mysterio dos tempos com os jeroglificos, os carecteres cuneiformes, e as construcções cyclopeanas.

A descoberta de uma inscripção é um facto, que póde fazer uma revolução na historia; que póde reconquistar idéas perdidas, e anniquillar outras em pleno dominio : um nome, uma phrase em uma lapida, podem preencher lacunas immensas, restaurando conjecturas, e abrir uma estrada luminosa do passado ao futuro.

Os povos que tem uma civilisação nascente, são naturalmente credulos, e sua imaginação os arrasta a ver thesouros encantados por todas as partes; e os homens amigos do mysterios o algumas vezes tambem crêm encontrar vestigios dos outros homens n’aquillo, que é um acaso da natureza.

A commissão cumpre, que aqui manifeste perante o Instituto Historico e Geographico a sua gratidão para com os Sr. Rev. ex-vigario da Lagôa, Manoel Gomes Souto, Manoel Joaquim Pereira, e João Luiz da Silva, pela bizarra e cordial hospitalidade que d’elles recebeu; assim como ao Rev. Sr. José Rodrigues Monteiro, capellão de S. M. I., que teve a bondade de acompanhar e servir de testemunha na averiguação da cópia que se fez da protendida inscripção, participando dos incommodos soffridos nesta exploração archeologica.

Senhores. Que no cume da Gavia do lado direito aos que vão pelo Serra da Boa-vista, n’uma pedra de forma cubica existem caracteres, ou sulcos que a elles se assemelham, é indubitavel; mas, a commissão não affirma que elles sejam gravados pela mão do homem, ou pela lima do tempo.
Assim como a natureza esculpiu sobre a rocha de « Bastia » a fórma de um leão em repouso ; na gruta das Sereias, em « Tivoli » um dragão em ar ameaçador; e na mesma Gavia a fórma de um mascarrão tragico; assim como ella eleva pontes naturaes, construe fortificações e baluartes, que ao primeiro lampejo da vista fazem crer ao viajor monumentos de mão do homem, assim ella podia gravar na rocha viva aquelles caracteres que podem mais ou menos por suas fórmas approximarem-se a algumas das lettras dos alphabetos das nações antigas e orientaes.
 
A commissão não deseja representar perante o Instituto Historico o papel dos antiquarios de Walter Scott e Goldoni, para não encontrar a illusão de suas conjecturas na ingenuidade de um mendigo, ou nas trapaças de um Brighella ; tanto mais que com os seus proprios olhos ella encontrou em diversas pedras isoladas em roda da mesma Gavia, sulcos profundos entre dous veios do granito, que mais ou menos representavam e caracteres hebraicos, e alguns até romanos, e de uma maneira assaz evidente e caprichosa.
 
Pythagoras, senhores, olhava para o sol como um Deus, e Anaxagoras como uma pedra inflammada. A commissâo nesta sua primeira analyse voltou, como os dous philosophos, vendo uma inscripção, e vendo uns sulcos gravados pela natureza.
 
Argumentos notaveis se apresentam de uma e de outra parte para que ambas as conjecturas tenham seu fundamento, e suas principaes proporções vos vão ser apresentadas.
 
1.a Que os diversos viajantes têm descoberto inscripções em differentes rochedos do Brazil, e que a da serra da « Anabastabia », aonde se crê ver a descripção de uma batalha, assim como a das margens do « Yapura » e outras mais, que se veem na famosa collecção das palmeiras de « Spik et Martiles », dão uma prova da existencia desta sorte de monumentos no nosso solo : accrescentando mais a tradição das « Letras do diabo » n’um rochedo em Cabo-frio, que depois de dados mais exactos, algum de nós, se transportará ao logar para copial-a, e descortinar mais esta ponta do véo que encobre a historia primitiva desta terra bemaventurada.
 
2.a Que assim como Pedralves Cabral, e Affonso Sanches, empurrados pelos ventos descobriram o continente da America, tambem alguns desses povos antigos, que a ambição do commercio forçava a sulcar os mares, podia por iguaes motivos aportar ás nossas praias, e escrever sobre uma pedra um nome, ou aquelle acontecimento, para que a todo o tempo as gerações vindouras lhe restituissem a gloria de tão grande descoberta.
 
3.a Que a inscripção da Gavia se acha collocada de uma maneira vantajosa a estas conjecturas: voltada para o mar- em uma face da rocha cubica, pouco escabrosa, com caracteres collossaes de 7 a 8 palmos, ao rumo de L. S. E., pode ser vista a olho nu de todas as pessoas que por alli passarem ; e notavel é que os habitantes daquelles logares todos conhecem as lettras da pedra. A inscripção assim collocada está exposta á furia das tempestades e dos ventos do meio-dia, e por consequencia deve estar mui safada, tanto mais que o granito da pedra, em que está gravada, é de uma consistencia menos forte, por conter muito talco e mica, e na sua base existem tres concavidades esboroadas que formam o aspecto do mascarrão.
 
Um dos dados archeologicos, para fortificar qualquer conjectura na averiguação de taes monumentos, é o da possibilidade de poder-se ou não gravar naquella altura immensa, uma inscripção tão colossal, e o caracter geologico do mesmo logar.
 
O terreno que circunda as raizes do morro da Gavia, é todo primitivo, á excepção de uma pequena enseada que está na base da collina da fazenda da Gavia, que é de terreno de alluvião, pouco acima do nivel do mar, e que nada influe sobre os pontos principaes que se denotam dos «Dous Irmãos» á Tijuca, e desta á Gavia, que são massas enormes de granito, cobertas de uma crosta de terra vegetal, assaz delgada, e tendo aqui e alli glebas de carbonato de ferro, ou saibre micoso; o mar está mui proximo, nenhuma revolução grande, se exceptuarmos alguns calhaos destacados dos morros, se denota naquelle recinto.
 
O homem, que levado a aquelles lugares quizesse deixar uma memoria da sua passagem, facilmente seria seduzido pela magestade e grandeza do morro da Gavia, e pela disposição d’aquella pedra com uma face quasi plana, e fronteira ao mar: emquanto ao accesso do cume da Gavia elle é incontestavel, porque dias antes da nossa exploração alguns officiaes da marinha ingleza lá subiram, e collocaram umas bandeirinhas, ainda que com muito custo.
 
O lugar aonde está a inscripção póde ser que em tempos remotos fosse mais atterrado, e que com os seculos tenha sido excalvado pelas continuas humidades, chuvas e ventos do sul.
 
Porém, senhores, além d’estas considerações, e outras mais diminutas, que conduzem o nosso espirito á crença, outras se levantam para encontral-as, e nos obrigam a oscillar entre a affirmativa e a negativa.
 
1.a Que os pretendidos caracteres, que apresenta o rochedo da Gavia, não se assemelham aos dos povos do velho continente, que emprehendêram as primeiras navegações e muito menos aos dos modernos.
 
2.a Que estes caracteres, comparados com os alphabetos e inscripções, que Mr. Court de Gibelin dá na sua obra do — Mundo Primitivo —, não apresentam semelhança alguma de uma inscripção Phenicia, Cannanéa, Carthagineza, ou Grega ; e que mais parecem sulcos gravados pelo tempo, entre dous veios do granito, pois com iguaes apparencias se encontram, não só no lado opposto do da inscripção da mesma Gavia, como em outras pedras destacadas, e principalmente uma grande, que se encontra á esquerda, na base do morro, quando se sobe para a casa do Sr. João Luiz da Silva. 

3.a Que a parte da rocha, aonde começa a pretendida inscripção, além de perpendicular e de um accesso quasi impossivel, é a menos conservada, ou a mais apagada; sendo aquella que está menos exposta á furia das estações; alguns traços perpendiculares, outros mais ou menos obliquos, mais ou menos curvos, ligados por hastes interrompidas, que muito e muito se assemelham a veios, fazem o todo da inscripção, e uma grande irregularidade de profundidade se observa na gravura, assim como no largo veio da base, que se poderia conjecturar como um traço, para melhor se descobrirem as lettras o qual é interrompido visivelmente, e dá fórmas não equivocas de um veio mas profundo. Este argumento é fortificado pela profundidade dos caracteres da parte esquerda, que estão mais expostos, do que os da direita, por entrarem na curva, que se dirige para o norte.
 
Os Phenicios escreviam da direita para a esquerda, e trabalhando d’est’arte, deviam dar a mesma profundidade ás lettras para que ellas fossem igualmente visiveis.
 
Mas, a commissão, senhores, vindo perante o Instituto Historico e Geographico dar conta de sua missão, está longe de protestar solemnemente contra a idéa de ser, ou não, uma inscripção aquelles sulcos ou traços, que se encontram no cume da Gavia, porque ella ainda não empregou os ultimos recursos, que lhe restam para a verificação de semelhantes monumentos; ella vem, em familia, expôr as suas impressões c conjecturas, e protestar que uma segunda exploração será feita com melhores instrumentos e com um dia mais favoravel, para ver se obtem um resultado de maior evidencia, e mais positivo ; lastimando comtudo o não poder estudar a memoria que o illustre Fr. Custodio escrevêra, n’outros tempos, sobre esta mesma inscripção. 

A commissão tem presente na lembrança as navegações d’esses povos da antiguidade, e se triumphar a idéa do Ilustre Padre Mestre, ella a fortificará por uma memoria mais ampla e circumstanciada, e nas fórmas demandadas pela sciencia da Archeologia, em que não sómente passará em resenha todas as tradições que temos das navegações dos antigos, como tambem procurará nas linguas, e tradições de diversos povos, a esteira luminosa traçada pela civilisação dos Phenicios, entre os povos das ilhas, aonde elles tiveram suas feitorias, e aonde elles deixaram monumentos materiaes de sua existencia e passagem, tanto na Asia e Afríca, como na America, que segundo Stevam Sewall, e Court de Gibelin ahi aportaram, e deixaram inscripções na parte septentrional. 

A commissão não desespera da gloria, que aguarda o Instituto Historico e Geographico na descoberta de iguaes monumentos; nem da esperança de ver apparecer em seu seio um Champoleon brazileiro, esse Newton da antiguidade Egypcia ou Cuvier do Nilo, para com o facho de seu genio indagador llluminar esta parte tão obscura da historia primeira do nosso Brazil; e porque ella póde n’um dia contemplar aquelle monumento como Anaxagoras o sol, e no outro como Pythagoras, ver n’aquella rocha uma inscripção gravada pelo acaso e o tempo, ou um padrão, pelo cinzel do homem, deixado ás gerações vindouras. 

Rio de Janeiro, 23 de Maio de 1839.— Manoel de Araujo Porto Alegre.— Januário da Cunha Barbosa. Como testemunha, José Rodrigues Monteiro


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