terça-feira, 19 de março de 2013

Cidade Petrificada de Mato Grosso (1): depoimento de Hércules Florence (1827)

A continuação, presentamos um trecho do livro “Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas: 1825 a 1829”, escrito originalmente em francês por HÉRCULES FLORENCE, na época, segundo desenhista da comissão científica de Barão de Langsdorff. O livro é um esboço da viagem feita por Langsdorff no interior do Brasil, desde setembro de 1825 até março de 1829.

Neste trecho, Florence relata como Em abril de 1827 saiu de Cuiabá, dirigindo-se à Serra da Chapada e ao Morro São Jerônimo, e visitou um “vasto recinto de ruínas”, que se assemelhavam a uns “soberbos monumentos levantados por uma raça de arquitetos gigantes”. O relato vem acompanhado dos desenhos feitos pelo autor mesmo. 

"Apenas déramos algumas voltas na chapada e já não víamos nem a planície de Cuiabá, nem o morro de São Jerônimo que ficara oculto por umas colinas à direita, mas eis que ao longe, coroando verdejante eminência também à direita, erguem-se rochas de formas extraordinárias e mais longe ainda maciços azulados enchem o horizonte, como se fora o velame de numerosa esquadra.
 
Aproximando-nos dessa eminência, vimos pouco a pouco surgirem sete enormes penedos de 50 pés de altura, isolados e esparsos na colina e na planície, mais estreitos embaixo do que em cima e saindo, não se sabe por que força da natureza, de um terreno falto de pedras e coberto de verdura, como se houvessem caído do céu e, pela violência da queda, fincado a base pela terra adentro. Dois deles, mais culminantes, representam como que três túmulos, dois dos quais juntos, ou então três enormes edifícios, como aquelas torres antigas que na Itália passaram com o correr dos tempos por transformações que lhes tiraram a forma primitiva.

Vista dos rochedos da Chapada, nos arredores de Cuiabá.

Terceira rocha sai da terra, empina-se a prumo como um fragmento de muralha, três vezes mais alta do que larga e com seis metros de espessura. É formada de camadas superpostas de paralelepípedos e cubos: a base quadrada é muito estreita; vai alargando até dois terços de altura total, estreitando-se novamente em stratus irregulares. De lado, parece um navio com todos os panos fora, visto da proa ou popa.

Três outros maciços mais informes, não são notáveis senão pela grandeza e idéia associada de enormes túmulos ou edificações feitas por mãos humanas, para o que muito concorrem as camadas horizontais de que são todos eles constituídos.

O que, porém, de longe obriga mais a atenção é ainda um grande fragmento isolado de muralha, atravessado na estrada e aberto como se fora um pórtico, tendo acima um furo circular, um pouco à direita, figurando de janela. Passamos por baixo da majestosa arcada, admirando a espessura e perpendicularismo dessa rocha que, a modo de uma porta, ainda de pé, da arrasada Babilônia, dá entrada a vasto recinto de ruínas.

Atravessa-se então uma planície cheia de contrafortes circulares encostados aos montes, como se houvessem sido primeiro construídos para, com aterro de rochas e terra, sustentarem esplanadas artificiais, onde árvores e relva produzem a impressão de jardins suspensos. Do meio desses contrafortes saem umas espécies de enormes pedestais, circulares e emoldurados, alguns até com restos de colunas. O caminho plano serpeia por entre essas majestosas massas que para nós se destacavam num céu toucado das suaves cores do crepúsculo.
 
Nos montes e na planície, por toda a parte, avistam-se grupos de pedras que, com os contrafortes, semelham os restos de uma cidade imensa, em que durante séculos imperara a mais nobre arquitetura. Fica a gente pasma ao achar-se de repente no meio de uma natureza que fala linguagem desconhecida até então, pois onde só há rochas julga-se ver os destroços de soberbos monumentos levantados por uma raça de arquitetos gigantes.

(...) Por todos os lados não se enxergam senão túmulos, pedestais, colunas partidas, escadarias, anfiteatros e urnas. Três destas parecem feitas pela mão cuidadosa do homem. Uma, de 30 pés de alto e 20 de diâmetro, descansa numa base de seis pés colocada sobre pedestal de 40 pés que forma o canto de um contraforte da mesma altura.

Nesse mesmo baluarte, duplo soco formado por cornijas circulares sustenta um resto de gigantesco fuste, e pontas de rochas horizontais surgem do meio das árvores, suspensas como se fossem varandas e socalcos. 
 
Por trás desse contraforte, em plano mais afastado, há um maciço maior que a urna, mas tendo também base estreita e semelhando a proa de uma galera antiga. Mais longe, outro baluarte, comprido e sustentando à esquerda uma grande rocha esférica e quatro penedos de pé como canudos de órgão, fecha uma das quatro vistas que tirei por me parecerem mais assombrosas e dignas de serem reproduzidas.

Outra vista da Chapada, nos arredores de Cuiabá.

(...) Voltando à esquerda do caminho no fundo da fazenda, apresenta-se um vasto grupo de rochas que deixa o olhar atônito de ver tanta singularidade. Uma, porém, prende logo mais fortemente a atenção, ficando-se a princípio em dúvida se aquilo é simples capricho da natureza ou um magnífico arco-de-triunfo, erigido por altivo e grande conquistador. O bloco ergue-se isolado, cortado em ângulos retos, de 40 pés de altura e 25 de largo sobre 20 de espessura, ornado de frisos em distâncias iguais, rostros e entablamento.

À esquerda, no primeiro plano, duas grandes rochas, separadas ao quarto da altura por estreita abertura, mas tendo uma base comum, mostram aspecto muito diferente. Uma é formada de cornijas reentrantes embaixo, como um púlpito ou a popa de um navio de bateria circular: a outra, composta de camadas horizontais de paralelepípedos verticais e cubos salientes, como se fosse o resultado de colossal cristalização, apresenta no lado direito saliências que se podem comparar com aqueles pequenos modilhões que nos altares saem do plinto e recebem as imagens dos santos.

Atrás desses dois rochedos e do arco triunfal uma última decoração limita tão extraordinária paisagem: é um bosque que se vê de frente e donde saem lanços de rochas, verdadeiras muralhas coroadas de vegetação, separados por vielas oblíquas como bastidores de teatro e cheias de arbustos.

Depois de umas voltas que dei, apresentou-se as minhas vistas quarta perspectiva não menos admirável. No primeiro plano estende-se um terrapleno de relva, e do meio de uns fragmentos de camadas pedregosas ergue-se uma torre redonda de 35 pés de altura sobre 30 de diâmetro, tão regular em sua forma que difícil será dar crédito às minhas palavras e lápis. Cinco faixas indicadas por linhas de cornijas a compõem: as três primeiras, a partir da base, nada têm de extraordinário a não ser o arredondado bastante regular, mas a quarta parece uma arquitrave, cuja parte visível é dividida em três seções convexas coroadas por três cornijas iguais. Depois aparece acima um friso, que mostra idêntica divisão em três arcos convexos. O que, porém, mais admira é que cada um desses arcos por seu turno está cortado em três reentrâncias de forma quadrada. Todo o friso produz a impressão de um friso que cai em ruínas, no qual se distinguem ainda os vestígios de nove tríglifos e outras tantas métopas. Esse brinco da natureza, com a competente cornija por cima, coroa de modo estupendo aquela torre, mas não a termina, porque o todo é rematado por pontas de rochas irregulares.

À direita, e como que para figurar ao lado dessa ruína, levantam-se duas rochas, uma de 10 pés de altura semelhando um candelabro, a outra, de quatro, um vaso.

Esse primeiro plano é limitado à esquerda por um baluarte que parece ter uma guarita no ângulo. Na base fica-lhe uma urna de seis pés de alto. 
 
Imenso túmulo oval aparece por trás desse baluarte, em parte encoberto por arbustos.

Mais adiante abre-se um vale pouco fundo, cujo declive suave é semeado de árvores de entre as quais sai um obelisco que se vê no intervalo que separa o candelabro da torre, ao passo que entre esta e o túmulo aparece naquele mesmo mato uma grande rocha cúbica, suportada por base estreita e terminando um muro que se estende além. Enfim do meio do montículo arborizado e mais distante surgem três grandes pedras, colocadas umas sobre as outras e que sobrepujam em altura a todas as mais. Azuladas colinas formam ao longe o horizonte dessa bela e singular paisagem".


De:  Florence, Hercules. Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas : 1825 a 1829. Edições do Senado Federal ; v. 93.Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial. 2007. P. 130-141.

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