sábado, 9 de março de 2013

Documento 512 (1): O achado


Oleg I. Dyakonov


Os meados de 1839 eram uma época feliz para Manoel Ferreira Lagos, um jovem médico fluminense, quem naquele mesmo ano formou-se pela Escola de Medicina. Vale notar que pela inclinação, ele, contudo, não foi médico, mas um naturalista: ainda nos dias da sua mocidade escolar, ele ajuntou uma boa biblioteca que denotava seu particular interesse pelas ciências naturais, e para o o final de sua vida, esta biblioteca seria considerada sem igual na capital do Império. Talvez precisamente a noção clara da sua vocação fosse a razão de que Lagos, tendo prestado brilhantemente todos os exames, todavia optou por não defender a tese para receber o grau de Doutor em Medicina, e nem sequer começou a escrevê-la (ainda que as verdadeiras razões dessa decisão não foram esclarecidas). Pelo resto de sua vida, Lagos fez uso da sua formação acadêmica unicamente para fornecer serviços médicos aos pobres e amigos, sempre gratuitamente.

Mesmo antes de finalizar os estudos na Escola de Medicina, Lagos foi honrado com a amizade e patrocínio do cônego Januário da Cunha Barbosa, primeiro secretário perpetuo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Obviamente, o cônego divisou neste jovem um espírito verdadeiramente científico e valorizou altamente a sua capacidade literária, levando-o para a redação da “Revista Trimensal do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro” como seu auxiliar. Lagos entrou nas fileiras do IHGB como sócio correspondente em 28 de junho de 1839, sendo aceito como membro pleno na sessão de 24 de agosto do mesmo ano, por sugestão de seu patrono. 

Manoel Ferreira Lagos.

O jovem erudito ainda tinha por diante uma brilhante carreira, pois com o passo dos anos, chegaria a ocupar, entre outros cargos, o de secretário perpétuo do Instituto (sucedendo ao Cônego Januário) e, depois, o de seu 3º vice-presidente.

Naquela altura, nos meados de 1839, foi-lhe necessário a Lagos trabalhar nos arquivos do Livraria Pública da Corte. Então, a sua atenção foi atraída por um antigo caderno, ou tomo encadernado em couro de bezerro, que continha uma coletânea de relatórios manuscritos (26 em total) do tempo e origem mais diversos. Estes não eram, de fato, documentos originais, mas apenas copias deles, que foram elaboradas pelos escribas para os arquivos do Estado, de acordo com o que era então a prática burocratica comum.

Intrigado, Lagos começou a olhar para os relatórios. O tópico principal de todos os escritos, que serviu de critério para que estes tivessem sido reunidos sob um única capa, era claro : todos tratavam das minas, encontradas alguma vez no território do Brasil. A coletânea começava com um parecer do Conselho Ultramarino (então, a principal autoridade portuguesa encarregada do comércio, assuntos militares e legais das colônias) e prosseguia com relatos de várias expedições, empreendidas no interior do país em busca do metal precioso. A impressão era de que alguém mandou para copiar e combinar essas informações em um único volume, de forma a criar uma espécie de guia para o futuro.

Algumas dessas relações (de tamanho variado, sendo que várias delas não passavam de algumas linhas) eram de caráter francamente fantástico: vale recordar aqui o depoimento de Brian Fawcett, filho caçula de Coronel Fawcett, afirmando que “a comunicação que segue o relatório da ‘Cidade Perdida’ é, aparentemente, a relação da visão febril de algum maníaco religioso, pois fala de maravilhas que não pertencem absolutamente a este mundo!”. Mas nenhum documento poderia se comparar pelo caráter extraordinário do seu conteúdo com o 23º documento da coletânea, que compreendia s folhas numeradas de 55 a 59 v. e tinha uma curiosa nota inscrita no canto superior direito da sua primeira página: “Minas” (seriam “Minas” no sentido de jazidas de metais preciosos? Ou realmente tratar-se-ia da então Capitania de Minas Gerais?). O título deste documento imediatamente chamou a atenção do jovem pesquisador: “Relação historica de huma occulta, e grande Povoação, antiguissima sem moradores, que se descubrio não anno de 1753”. O charme dos segredos escondidos no título surpreendeu imediatamente a mente curiosa.

Infelizmente, o caderno, aparentemente, tinha sido tão seguramente guardado durante décadas, que no final ficou simplesmente esquecido e, consequentemente, deixado à mercê dos cupins insaciáveis. E era esta parte do volume que, lamentavelmente, encontrava-se em um estado ruim: o topo de cada uma das folhas que compunham a relação era atravessado por um fino contorno escuro, engrossado na sua ponta. Deste modo, muitos dos trechos mais importantes do texto foram perdidos para sempre. Ainda assim, o relato contido no documento felizmente conservou-se como um todo.

E o seu significado era absolutamente incrível.

O jovem cientista, sem dúvida, chocado com o seu achado e, apressou-se a mostrar o documento ao seu amigo, patrono e protetor. 

Cônego Januário da Cunha Barbosa.

A reação do cônego Januário ao manuscrito é em si um outro mistério. Como veremos, ele deixou a respeito umas alusões muito intrigantes, que jamais quis explicar. Por agora, basta dizer que, após ter percebido a importância do documento, ele imediatamente começou a prepará-lo para publicação no “Revista Trimensal”, e empreendeu algumas pesquisas históricas necessárias para prover a tal publicação de uma advertência da sua própria autoria.

A continuação, vamos presentar as duas versões do Documento 512: primeiro, a transcrição literal exata da sua copia manuscrita guardada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; e depois, a edição impressa na “Revista Trimensal”, de 1839. Na nossa opinião, ambas possuem importância primordial para uma pesquisa aprofundada do assunto e a sua comparação pode levar à alguns esclarecimentos.

Vale agregar também que o número de referência “512”, com o qual o documento tornou-se mundialmente conhecido, tem uma origem muito tardia, datando apenas de 1881. Naquele ano, o manuscrito aparece pela primeira vez identificado com esse número no Catálogo da Exposição da História do Brasil. 



BIBLIOGRAFIA



DÓRIA, Francisco Antonio. Caramuru e Catarina. São Paulo: Senac, 2000.

FAWCETT, Brian. Ruins in the Sky. Hutchinson of London, 1952.




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OLEG DYAKONOV
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