quinta-feira, 25 de abril de 2013

J. A. Fonseca (3): Cidades e povos perdidos do Brasil (1ª Parte)

O mito das cidades perdidas da América do Sul, especialmente do Brasil, como o Eldorado, Manoa, o Gran Paititi, etc., impregnaram com força as mentes ambiciosas dos primeiros colonizadores que aqui chegaram embalados pelas histórias contadas no Velho Mundo.  


Por J. A. FONSECA
Fevereiro/2013


Lendárias cidades perdidas impregnaram crenças da América do Sul.

Não seria exagero afirmar que ainda podem ser encontradas muitas regiões inexploradas no Brasil, especialmente na Amazônia, uma vez que aí têm sido localizados certos registros rupestres que levam-nos a suspeitar que estejam relacionados a uma outra categoria de habitantes, que pouco se compatibilizariam aos hábitos e cultura dos conhecidos silvícolas que aqui foram encontrados quando de sua “descoberta”.

O mito das cidades perdidas da América do Sul, especialmente do Brasil, como o Eldorado, Manoa, o Gran Paititi, etc., impregnaram com força as mentes ambiciosas dos primeiros colonizadores que aqui chegaram embalados pelas histórias contadas no Velho Mundo sobre as magníficas riquezas que diziam se ocultarem nestes recantos milenares e pelos novos relatos que ouviram dos nativos. Entretanto, o estudo da arqueologia não ousou ainda aprofundar-se na questão destas outras possibilidades, inclusive, sair em busca de vestígios de uma cidade abandonada na Amazônia, uma vez que esta acabou se tornando num dos últimos redutos que ainda guardam regiões desconhecidas sobre a Terra.

Quando os espanhóis chegaram ao Peru e ao México encontraram uma grande quantidade de ouro nas comunidades locais, o que os fez acreditar que teriam encontrado pistas contundentes das cidades lendárias que enfeitiçavam a sua imaginação. Com isto ao seu respeito, o mito agigantou-se ainda mais no subconsciente desses conquistadores, como se estas cidades fossem mesmo reais e pudessem ser ainda mais grandiosas do que aquilo que estavam presenciando.

No tocante ao Brasil, existem muitos mistérios relacionados ao seu passado que correm pelo país em forma de boatos e através de crônicas escritas por pesquisadores e interessados na temática das cidades desaparecidas em matas e em locais inacessíveis. Na Amazônia, muitos relatos ainda rondam entre os populares com grande força e, muitos destes, já teriam até mesmo ultrapassado nossas fronteiras. Um dos casos que trouxeram grande interesse e muitas discussões foi o da enigmática “A Crônica de Akakor”, revelada por Tatunka Nara ao jornalista alemão Karl Brugger, o qual, dizia-se descendente de uma tribo indígena chamada Ugha Mogulalas, que ainda sobrevivia no interior da floresta Amazônica.

Outro caso que suscitou grande repercussão e levantou muitos questionamentos é o que se refere ao Documento nº. 512 da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que trata das misteriosas minas de prata de Muribeba, na Bahia, e um terceiro se refere às ruínas de uma cidade muito antiga nas matas do Mato Grosso, insistentemente procurada pelo Coronel Fawcett, no início do século XX.

Neste sentido, as afirmações não confirmadas transformaram-se em mitos que acabaram por esparramarem-se como um rastilho de pólvora por toda a parte, como o que se relaciona a estas narrativas sobre as cidades perdidas, abarrotadas de ouro, no interior do Brasil e dos países que fazem parte da floresta Amazônica. Tais casos ultrapassaram a barreira do tempo e perduram até os dias de hoje, com maior descrédito por causa da tecnologia disponível e do avanço do “progresso” pelas matas e locais outrora ermos de nosso país. Porém, certos resquícios enigmáticos que podem ser vistos em diversos lugares, mantêm viva a chama do mistério e denunciam que algo precisa ser explicado mais convenientemente.

Sob esta ótica, também classificaríamos como um enigma brasileiro, o legendário monumento arqueológico do Ingá, na Paraíba, que pode ser destacado como um dos grandes mistérios que perdura, apesar dos estudos arqueológicos que já foram feitos nas proximidades, mas que pouco evoluíram em relação aos signos desconhecidos que ele traz incrustados em seu maciço rochoso. Seu complexo megalítico tem levantado muitas discussões e conduzido a inúmeras teorias a respeito de sua provável origem, mas as causas que o levaram a existir continuam invioláveis.

Para muitos, as insculturas ali gravadas se tratam de modelos característicos de inscrições que são atribuídas a Sumé, o civilizador dos índios tupis, figura lendária que teria passado pelo Brasil antigo e ensinado muitas coisas aos silvícolas. Sua imagem mítica, fortemente reconhecida pelos nativos, percorre desde o Rio Grande do Sul até o estado do Maranhão e é descrito como um grande feiticeiro branco e barbado que teria vindo através do mar. Além de Sumé ter-lhes ensinado o plantio e a utilização da mandioca, seria também o responsável pela abertura de diversos caminhos pelo interior do Brasil até o Peru, que ficaram conhecidos pelos nomes de Peabiru ou Piabuyu e significa “caminho da montanha do sol”.

O certo é que muitos mistérios ainda persistem sobre esta terra paradisíaca da Insula Brazi e sobre os quais, poderíamos aqui nos estender por longo tempo. Estamos, entretanto, chamando a atenção para estas possibilidades e adiante mostraremos certas regiões e “construções” estranhas que, por si só, nos trariam conforto por pensarmos que existiu algo de forte relevância no passado desta terra por nós chamada de Brasil.

É importante citar também o lendário reino de Ofir, região desconhecida onde o rei Salomão explorava ouro e pedras preciosas em suas magníficas minas e que jamais foram descobertas, podendo estar relacionadas a estas terras desconhecidas do leste. Segundo narram alguns, estas minas se localizavam na floresta Amazônica, uma vez que foram encontradas inscrições que muito se assemelham aos hieróglifos semíticos e proto-semíticos nestas regiões sul-americanas.

Típica urna Marajoara com ricas pinturas em vermelho e preto sobre engobo branco. A riqueza dos detalhes impressiona os pesquisadores da arqueologia brasileira.


A Miracangüera de João Barbosa

Muitos brasileiros talvez não saibam que ainda existem estranhas regiões ocultas situadas no interior da Amazônia e um povo, também desconhecido, que teria vivido por aquelas paragens não totalmente desbravadas nos dias atuais. Uma destas regiões misteriosas, que foi chamada de Miracangüera, acabou por provocar uma grande polêmica em todo o mundo, por causa do inusitado de sua descoberta, mostrando resquícios cerâmicos valiosos e comprovando a presença humana em tempos passados numa região tão pouco povoada. Tal fato ocorreu nos idos do século XIX, por causa da descoberta de uma estranha e excepcional quantidade de peças cerâmicas elaboradas com elevada perfeição e diferente de tudo o que já foi encontrado até então no Brasil. Sua descoberta se deve ao eminente explorador João Barbosa Rodrigues, que teria percorrido por muitos anos os diversos afluentes do Amazonas, mapeando-os a serviço do governo imperial do Brasil.

Casualmente, Miracangüera foi encontrada quando João Barbosa seguiu uma pista dada por um viajante, com o qual havia visto uma vasilha de cerâmica de qualidade excepcional e que muito o impressionara. O local, segundo informações recolhidas, era próximo de onde se acha hoje a cidade de Itacoatiara, no estado do Amazonas. Lá, João Barbosa encontrou muitos pedaços de vasilhas em cerâmica de elevada e rara qualificação, jamais vistos em qualquer outra região do Brasil. Em suas pesquisas percebeu que seria difícil localizar o grupo indígena que poderia ter produzido aquelas peças, pois as tribos que ali existiam não tinham condições culturais para produzir cerâmicas com a qualidade das mesmas, além de que seus prováveis executores pareciam ter desaparecido completamente. João Barbosa faleceu em 1909 sem ter conseguido sensibilizar o governo brasileiro para a importância da pesquisa naquele local. Consta que, em 1925, o antropólogo Kurt Ninnendaju fez tentativas de encontrar Miracangüera, mas a ilha onde ela se localizava teria sido encoberta pelas águas do rio Amazonas, ocultando definitivamente seu mistério.

Outros arqueólogos norteamericanos também estiveram no local, mas nada encontraram. Para João Barbosa Rodrigues, aquele povo extraordinário de Miracangüera e sua arte não eram originários da região e se tratavam de mais uma cultura perdida, excepcionalmente avançada, que teria vivido naquele longínquo recanto do Brasil.

Bernardo Ramos em sua obra excepcional editada em 1930, “Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica, especialmente do Brasil – vol. I”, também fala desta região e a chama de Miracauera ou Necrópole (local onde se enterram os mortos) e que se fez destacar por causa do surgimento de urnas funerárias de suas elevadas barrancas que desmoronavam na vazante do rio Urubu na confluência com o Amazonas. E o mistério de Miracanqüera permaneceu sem solução.

Por uma razão que desconhecemos, as questões que envolvem a possibilidade de haver cidades perdidas no interior do Brasil e povos anômalos que teriam vivido nestas paragens, são sempre evitadas pelos pesquisadores, salvando-se apenas alguns poucos, até meados do século passado, que expressaram suas opiniões favoráveis neste sentido.

Apesar de algumas destas cidades terem sido citadas nominalmente como Manoa, Eldorado, Paititi, Paraúnas, etc., e o avanço para o oeste ter desbravado muitas regiões e matas, estas cidades não foram encontradas. Por isto, muitos pesquisadores afirmam que tais histórias não passam de mitos e boatos que perduraram por todos estes séculos, apoiados na ânsia alimentada pelos descobridores sobre as riquezas que estes pretendiam encontrar. No caso dos povos perdidos, também não se conseguiu encontrar registros dos mesmos a não ser resquícios arqueológicos, especialmente cerâmicos, de sua passagem por estes lugares.

Impérios perdidos

Entretanto, mesmo nos dias atuais a questão das cidades perdidas continua a fervilhar a curiosidade de muitos, a ponto de terem sido organizadas expedições e buscas individuais no início do século passado, que acabaram culminando em desaparecimentos nas selvas brasileiras. Manoa, por exemplo, acabou se incorporando à própria história da América do Sul, pois este mito surgiu logo após a conquista do Peru, levando muitos aventureiros a organizarem expedições para encontrá-la. Sabe-se que a expedição de Diego de Ordaz, partida da Espanha em 1531, foi a primeira que se aventurou pelas selvas densas da Amazônia em busca dos tesouros de Manoa. Apesar de este ter perdido dois navios no rio Amazonas, conseguiu reunir informações sobre esta misteriosa cidade, as quais afirmavam ser constituída de aldeias e pequenas comunidades, embora sua capital estivesse localizada entre os rios Orinoco e Amazonas, que na época eram chamados de Huayapari e rio Grande.

Depois desta expedição muitos outros penetraram pela selva densa em busca desta cidade milenar, sem sucesso. Dez anos depois da expedição de Ordaz, Francisco Orellana empreendeu uma longa viagem pelo rio Amazonas em busca de Manoa e afirmou ter travado um grande combate com mulheres guerreiras em certo lugar do Grande Rio que, por isso, posteriormente, acabou sendo chamado de Amazonas. O padre Carvajal, cronista da expedição de Orellana escreveu que teriam encontrado em uma aldeia homens brancos com ornamentos de ouro, que eram tratados de maneira muito especial pelos nativos. Segundo suas crônicas esses homens, vistos por eles à noite, eram habitantes de Manoa. Ao amanhecer do dia seguinte não mais foram vistos pelas redondezas. Carvajal chamou a atenção ainda para as peças de cerâmica utilizadas pelos indígenas que muito o impressionaram, pois apresentavam uma qualidade excepcional. Chegou mesmo a compará-las às espanholas, de fina qualidade na época.

Um dos mais importantes pesquisadores que teria partido em busca destas cidades perdidas foi o governador Alvar Nunez Cabeza de Vaca, entre os anos de 1541 e 1562. Ao penetrar pelo estado de Mato Grosso os membros de sua expedição foram atacados pela febre e pela falta de alimentos, além de muitas outras dificuldades, tendo que retornar, mesmo que seus guias o tivessem informado que dentro de dez dias, no máximo, estariam alcançando a cidade de ouro.

Os próprios incas, dominados pelos espanhóis, esperavam que sua salvação viesse por intermédio do imperador do Gran Paititi, o grande império inacessível no interior da floresta Amazônica.

Walter Raleigh, aventureiro britânico, chegou a escrever um livro sobre suas viagens pelo rio Amazonas em busca de Manoa no ano de 1595, tendo sido orientado por outro aventureiro espanhol que também procurava a cidade das portas de ouro. Sua incursão foi feita pelo rio Orinoco, subindo até próximo do rio Amazonas. Informa Raleigh que chegou a ver as construções douradas da cidade de Manoa, situada às margens do lago Parimã, não podendo dela aproximar-se por razões de força maior. Consta que ele tentou uma nova aproximação de Manoa com uma nova expedição muitos anos depois, sem obter sucesso.

O mito que se relaciona ao Eldorado está ligado aos mais antigos relatos de uma cidade de ouro situada no planalto colombiano, onde se dizia que seu rei cobria seu corpo de ouro em pó e se banhava no lago Guatavita, enquanto seus súditos lançavam jóias e pedras preciosas em oferenda às divindades das águas. De fato, em buscas realizadas neste lago no período de 1562/1563, foram encontrados muitos objetos de ouro que foram avaliados pelos conquistadores em seis mil pesos.

Muitos aventureiros procuraram o império perdido de Enein, outro enigma que, segundo alguns, se localizava às margens do rio Madeira. Outros ansiavam encontrar a serra das Esmeraldas que passou a ser o grande sonho dos bandeirantes que se incursionavam pelo interior do Brasil. Fernão Dias foi um destes pertinazes buscadores de riquezas e acreditou-se na época que este experiente explorador pudesse localizá-la. No entanto, o bandeirante morreu em uma de suas investidas em busca da serra das Esmeraldas e, segundo se acredita, ele a havia encontrado antes de morrer.

Os anos transcorreram céleres, porém, os mitos das cidades perdidas não perderam a sua força, perdurando até os dias de hoje. No decorrer do tempo outros elementos surgiram, inclusive o famoso Documento nº. 512 da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, datado de 1753, que acabou alimentando o mito que se relaciona à misteriosa “Z”, uma cidade perdida procurada com ardor pelo Coronel Fawcett. Há ainda o mistério de Akakor, na Amazônia, do qual falaremos mais adiante.

Como já foi dito, o avanço da conquista das terras do oeste do Brasil e a expansão das cidades por todas estas regiões inóspitas e de difícil acesso, não foram capazes de encontrar as tais cidades perdidas e isto fez com que quase ninguém mais acreditasse em sua existência. Porém, a Amazônia continua sendo ainda uma incógnita e muitas regiões sob a floresta permanecem inexploradas. Alguns pesquisadores sustentam que nesta região amazônica existem muitas evidências que comprovariam antigas culturas sepultadas sob a mata densa, em locais inacessíveis.

Apesar disto, por volta de 1945, o Boletim de Informações do Brasil, publicado pelo Itamarati, fez a divulgação da descoberta de ruínas de uma cidade pré-colombiana no interior de Goiás, chamada de Serra das Figuras. De acordo com a publicação esta se localizava entre os rios Preto e Grande e apresentava restos de um enorme paredão com alguns metros de altura, além de ruínas de edifícios e palácios cercados de estátuas. Também foram encontrados espaços abertos como praças espaçosas e ruas, além de monumentos ciclópicos que, acreditou-se, estariam relacionados a construções arquitetônicas muito antigas.

O conjunto monolítico da serra da Galés em Paraúna assemelha-se a uma antiga cidade abandonada e destruída pelo tempo.

Também se levantou hipóteses sobre a existência de uma cidade abandonada em Paraúnas, também no estado de Goiás, onde teria havido uma grande civilização há milhares de anos. De fato, em nossas viagens à região, também encontramos vestígios importantes de uma antiga cultura localizada próximo a Serra da Portaria, em Paraúna. Lá encontramos uma espécie de fortaleza de pedra com muros construídos em blocos perfeitamente cinzelados e uma muralha de pedra ferro (basalto) de cerca de 15 quilômetros de extensão. Nossas impressões estão relatadas no artigo neste site cujo título é: “As inexplicáveis ‘Construções’ de Paraúna”.

Para o pesquisador do CNPC Centro Nacional de Pesquisas e Cultura de Brasília, Paulo Leofredo Costa, a cidade pré-colombiana de Paraúnas é de uma realidade incontestável. Segundo ele, as pedras que fazem parte de suas muralhas foram cortadas em dimensões e padrões regulares, alcançando até cinco metros de altura. Na parte interior da muralha foram encontradas pedras sobrepostas em forma de altar e algumas outras formações em estilo piramidal.

Silêncio acadêmico

Um fato de relevante importância que vem sendo relegado a planos secundários e condenado ao esquecimento é o que se refere aos livros dos indígenas brasileiros do estado da Paraíba. Segundo Aurélio de Abreu, citações antigas falam de livros escritos em folhas de casca de árvores e encadernados com capas de madeira que foram descobertos pelos jesuítas no final do século XVI. Para estes religiosos os escritos destes livros teriam sido inspirados pelo diabo e por isto decidiram destruí-los completamente, além de proibir que seu conteúdo fosse divulgado sob qualquer forma.

Neste ponto, vale mencionar também que parece estarmos vivenciando uma espécie de censura silenciosa que pretende ocultar certas descobertas e assuntos pouco veiculados sobre o passado do Brasil. Um destes fatos está relacionado à descoberta de vasos muito antigos feitos pelo Coronel Fawcett e o diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, na época, o professor Alberto Childe, que traziam gravados signos estranhos semelhantes a uma escrita desconhecida. O escritor e arqueólogo Aurélio M. G. de Abreu afirma que o prof. Childe escreveu um artigo sobre estes vasos e sua “escrita” em 1922 na revista de Ciências de nº. 6, que foi, misteriosamente, recolhida de circulação, não podendo mais ser encontrada em nenhuma das grandes bibliotecas do Brasil. É estranho que tal fato esteja ocorrendo em nosso país, principalmente quando tenham ambos afirmado (tanto o Coronel Fawcett, quanto o prof. Alberto Childe) que os vasos referidos tratavam-se de provas irrefutáveis sobre a existência de uma escrita desconhecida e muito antiga. Onde estariam estes vasos e por que teriam sido retirados da vista do público?

De outro lado, paira ainda a questão sobre os estranhos povos que viveram em Miracangüera, Marajó, Santarém e outras localidades da região Norte do Brasil, além de outros locais que demonstram a permanência de grupos autônomos por longo tempo, onde se podem ver certas inscrições misteriosas que continuam desafiando a argúcia dos pesquisadores e permanecem sem resposta.

As Minas de Muribeba-BA

A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro possui em sua Seção de Manuscritos, um estranho documento, que recebeu por código o número 512. Trata-se de um relato feito por bandeirantes no ano de 1753, a respeito de uma cidade abandonada que foi encontrada no sertão da Bahia, após muitos anos de investida em busca de minas de prata. Tendo-se como referência a data do documento, atribui-se a sua autoria à bandeira de João da Silva Guimarães, que teria desaparecido por cerca de 20 anos no interior do estado baiano em busca de riquezas, surgindo em seguida com a história relatada no manuscrito.

Caracteres desconhecidos encontrados no Documento nº 512.

Pensou-se então que se tratavam das famosas minas de prata de Muribeba, que haviam sido condenadas ao esquecimento, logo após a morte de seu proprietário. O mistério de Muribeba tem o seu começo com o bandeirante Belchior Dias Moréia, que tinha por apelido o nome dado às suas minas de prata, e que segundo consta, as teria deixado ao seu filho natural, um mestiço, de nome Robério Dias.

Durante muitos anos o herdeiro das minas de prata as teria explorado com afinco, tendo-se tornado num dos homens mais ricos da Bahia. Porém, ele desejava, ardentemente, possuir um título de nobreza, pois se tornara um homem realizado por causa de sua riqueza, mas sua condição de mestiço não lhe dava o devido destaque e incomodava-o. Decidiu-se então viajar até a Espanha e entrevistar-se com o rei D. Pedro II, que na época era rei da Espanha e de Portugal e oferecer-lhe suas minas de prata em troca de um título que o consagrasse como Marquês das Minas. O rei prometeu-lhe o solicitado, repassando suas instruções ao capitão do navio, exigindo que suas determinações fossem mantidas lacradas até que Robério fizesse a entrega das jazidas ao governador da Bahia. Em verdade, porém, não pretendia o rei dar-lhe tal titularidade e o mestiço, por sua vez, também duvidou disto, conseguindo do capitão, durante a viagem de regresso, saber do conteúdo dos papéis.

A conclusão final é que ele se negou a entregar sua propriedade e apesar de ter sido preso e mantido em cárcere por dois anos - e alguns dos índios que o acompanharam em suas explorações terem sido barbaramente torturados - não foi jamais revelado o local das famigeradas minas de prata. Depois de alguns anos Robério Dias comprou sua liberdade e viveu ainda durante muitos anos, tendo falecido no ano de 1622, levando consigo o segredo das majestosas minas de Muribeba.

Estas minas, por outro lado, passaram a ser procuradas com grande interesse e acabaram caindo na temática dos contos lendários do Brasil, sendo transmitido de boca para ouvido, através dos séculos. Muitas bandeiras foram organizadas tentando localizá-las, mas em vão. Muitas destas expedições não foram jamais reencontradas ou retornaram para relatar alguma coisa. Somente em 1753, de acordo com o documento número 512, é que o grupo de bandeirantes comandado por João da Silva Guimarães conseguiu localizar uma estranha cidade abandonada e relatar o que viu, após uma longa ausência no sertão baiano. Por incrível que possa parecer, apesar de o manuscrito ter feito referência clara aos rios Paraoaçu e Uná no sertão do estado da Bahia, as ruínas de Muribeba e suas minas de prata jamais foram encontradas.

O documento 512 relata com riqueza de detalhes uma região lendária e uma cidade em ruínas bem distante do litoral e por causa disto muitos passaram a imaginar que este relato falava das afanadas minas de prata de Muribeba.

No entanto, em relação a este documento do século XVIII, considerando-se os estudos feitos pelo pesquisador Gabriele Baraldi, nós teremos que fazer algumas considerações adicionais. Após estudos aprofundados sobre o Documento 512 este pesquisador concluiu que o mesmo deveria ter, no mínimo, dois autores e que sua origem remonta ao ano de 1553. Por fim, afirma que o mesmo teria sido “montado” por um copista da Companhia de Jesus e sofrido inúmeras modificações para, finalmente, ser redigido na forma como ele foi encontrado. Segundo Baraldi, este documento teria sido utilizado em circunstâncias variadas e para finalidades que não seria fácil saber quais teriam sido.

Este pesquisador contesta a autenticidade deste manuscrito com elementos muito fortes e não podemos ignorá-los. Comenta que um dos maiores contrastes deste documento está na erudição do narrador e que este não poderia jamais estar relacionado a um bandeirante qualquer. Disse ainda que o nome do rio mencionado não poderia ser o Paraguaçu-Una, mas o Pará-o-Açu Verá e que a cidade em ruínas não era outra senão a “cidade errante dos Césares”, relatada minuciosamente por Francisco César de Rojas, em 1553. Rojas dizia ter encontrado uma cidade muito rica em ouro e prata e muitos rebanhos de ovelhas, apesar de não terem sido vistos em suas cercanias nenhuma alma vivente.

Para o pesquisador Baraldi a narrativa de Rojas não seria outra senão o conteúdo do Documento 512. Em seu livro “A Descoberta – Doc. 512” faz citações do documento nº 39 do padre Juan de Azpilcueta Navarro, escrito em 24/06/1555, em espanhol, e do documento nº 65 de Antonio Rodrigues, de 31/05/1553, também em espanhol, dos quais, afirma, fora copiado todo o conteúdo do manuscrito catalogado na Biblioteca Nacional sob o nº 512. Para este autor, a montanha de prata do mestiço Muribeba era, em verdade, Potosi, na Bolívia, onde havia exploração de prata até o ano de 1626, quando um acidente com os diques próximos à cidade inundou todo o vale e fez com que os espanhóis abandonassem a região. Finalmente, defende o pesquisador, com o terrível terremoto ocorrido em 1692, cujo epicentro foi nas proximidades de Potosi, em Asticku, ficaram definitivamente sepultados todos os vestígios que ainda existiam da cidade perdida mencionada no Documento 512.

A Misteriosa “Z”

A cidade misteriosa procurada ardentemente pelo coronel Fawcett, fazendo-o penetrar fundo na selva Amazônica à sua procura, não tinha um nome específico, apesar de este ter-se baseado nas lendas que sempre cercaram as regiões desconhecidas do Novo Mundo. Nos meios iniciáticos era conhecida como a Misteriosa “Z”. Ele usou também como referência o Documento nº 512 e as estranhas inscrições dos vasos que viu no Museu Nacional do Rio de Janeiro com o prof. Alberto Childe. 

O coronel Fawcett.

O coronel Percy Harrison Fawcett era um homem de muitos predicados, além de que, como arqueólogo independente, se imbuía de muita coragem e determinação quanto aos seus objetivos, lutando sempre para vencer os obstáculos que surgiam em seu caminho.

Era amigo particular dos escritores Arthur Conan Doyle e Henry Rider Haggard, sendo que este último lhe deu de presente uma estatueta de basalto negro com inscrições muito antigas gravadas numa placa sobre o peito e na parte inferior da figura sacerdotal e disse-lhe ser originária de uma cidade perdida no Brasil. Possuía cerca de 25 cm de altura e, segundo se sabe, suas inscrições estavam relacionadas ao antigo alfabeto Devanagari, do qual, teriam se originado todos os demais alfabetos.

É curioso notar que alguns destes signos podem ser encontrados gravados em pedra em muitas regiões brasileiras, como se quisessem mostrar que estas terras se encontram, de fato, ligadas às mais antigas civilizações de nosso planeta.

Fawcett estava certo de que no centro da América do Sul, na região Amazônica, se encontrava o segredo do mais antigo templo mencionado pelas mais antigas tradições iniciáticas da Terra, o Templo Sagrado de IBEZ. Ele não tinha dúvidas de que nesta região central do Brasil encontraria as pistas para alcançar esse mundo lendário que se constituía no objetivo principal de sua busca.

Desde que chegou à América, penetrou profundamente pelas selvas tropicais, desde os Andes até a região do Mato Grosso, onde, finalmente, desapareceu. Quanto à misteriosa cidade procurada por ele, escreveu que havia encontrado um testemunho vivo de sua existência. Contatando certa vez com um nativo na Amazônia este lhe havia dito que conhecia um estranho local que possuía templos magníficos e cujas casas eram iluminadas por estrelas que jamais se apagavam. Suas conclusões e certezas, entretanto, desapareceram com ele em plena selva do Mato Grosso em 1925 e nunca mais se teve notícia de sua existência, a não ser o relato de um cacique xavante ao antropólogo e indianista Orlando Villas Boas, que afirmava que ele foi morto por um índio da tribo e enterrado não muito longe dali. 

Akakor 

Akakor é mais um mistério que envolve estas regiões lendárias do Brasil e segundo informações localiza-se no mais recôndito da floresta Amazônica, oculta dos olhares incrédulos e perscrutadores dos pesquisadores contemporâneos. Sua história e a possibilidade de realmente existir tal império perdido no interior das selvas brasileiras, são igualmente discutíveis, porém, existem determinados componentes deste estranho relato e outras circunstâncias misteriosas em torno dele, que acabaram conduzindo-o do campo místico e lendário simplesmente, como é visto, para outro, que o coloca junto dos ‘casos’ que permanecem ainda muito vivos e ganham força, pois que focalizam regiões ainda inexploradas da selva Amazônica.

O pesquisador David Hatcher Childress, em seu livro “Cidades Pedidas e Antigos Mistérios da América do Sul”, fala sobre o encontro do jornalista alemão Karl Brugger com o mestiço Tatunka Nara, que lhe falou sobre a cidade perdida de Akakor, afirmando ser príncipe daquele povo. Os primeiros contatos de Tatunka Nara com Karl Brugger se deram em Manaus, em 1972, quando ele afirmou que existiam três cidades habitadas por descendentes desta civilização no Brasil.

Segundo o indígena, Akakor está relacionada a uma antiga civilização e que seus remanescentes poderiam ser encontrados próximo da serra do Gupira, na região do alto Rio Negro. 

Escrita no idioma dos antigos mestres de Akakor, segundo Tatunka Nara.

Neste memorável encontro, o jornalista gravou diversas fitas tipo “K7”, onde o chefe indígena faz seu estranho relato. Brugger guardou segredo desta revelação durante alguns anos e, em 1976, esta acabou sendo transformada em um livro publicado por ele na Alemanha, sob o título de “The Chronicle of Akakor” (A Crônica de Akakor), causando uma grande comoção na época.

No ano seguinte, o escritor Erich von Daniken, ao tomar conhecimento do assunto veio ao Brasil e fez contato com Tatunka Nara que lhe fez as mesmas revelações que tinha feito a Karl Brugger. Foi então organizada uma expedição para explorar a região indicada, com a participação do arqueólogo brasileiro Roldão Pires Brandão que, infelizmente, acabou tendo de ser e interrompida por causa de inúmeros percalços durante o início da viagem e um acidente com o arqueólogo.

Segundo Tatunka Nara, a fantástica história contada por ele encontra-se registrada no livro de sua tribo, em sua própria língua original, o quechua, uma linguagem complexa, constituída de 1400 símbolos. Essa tribo é a dos ugha mongulalas, os que foram escolhidos pelos deuses, e se encontra oculta no interior da selva amazônica há cerca de 15 mil anos. Seus primeiros registros remontam a 10,5 mil anos antes de Cristo, quando os Grandes Mestres trouxeram a luz, pois os habitantes da Terra antes dessa época eram semelhantes aos animais irracionais. Nosso planeta sofria constantemente a ação de muitos terremotos e trovões que causavam grande perturbação entre aquele povo.

Falou-se também de pirâmides no interior da floresta amazônica, algumas das quais, avistadas por Brugger, que foram imediatamente contestadas, afirmando outros pesquisadores que se tratavam apenas de morros. Afirmou-se ainda que Tatunka Nara tratava-se de um marinheiro alemão com neuroses de guerra e que ele havia inventado toda aquela história de Akakor. Entretanto, ninguém procurou mostrar que marinheiro era este, como se sua identidade não tivesse nenhuma importância.

Por outro lado, a questão das cidades perdidas no Brasil continuou a ser tratada como lenda, ou como se estas fossem apenas invencionices populares, ou ainda, que se tratasse de um assunto proibido e que seria uma espécie de heresia falar sobre a possibilidade de estas existirem.

Acoplada a esta questão vamo-nos deparar também com o problema dos povos que aqui viveram e desapareceram misteriosamente, deixando apenas a marca indelével de sua passagem representada pelas excepcionais peças cerâmicas, sua arte e sua simbologia inexplicável. 



* J.A. Fonseca é economista, aposentado, espiritualista, conferencista, pesquisador e escritor, e tem-se aprofundado no estudo da arqueologia brasileira e realizado incursões em diversas regiões do Brasil com o intuito de melhor compreender seus mistérios milenares. É articulista do jornal eletrônico Via Fanzine (www.viafanzine.jor.br) e membro do Conselho Editorial do portal UFOVIA.

- Fotos e ilustrações: J. A. Fonseca.



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