domingo, 7 de abril de 2013

Sete Cidades do Piauí (1): Cidade petrificada no Piahui (1886)


Cidade petrificada no Piahui

Sete-Cidades. Na provincia do Piahui, ao sul da vila de Piracuruca, na distancia de 5 leguas, á vista da fazenda do Bom-Jezus, em uma grande planicie, axa-se o lugar denominado Sete-Cidades, que os moradores adjacentes têem por encantado, e d’elle contam muitas versões, que não passam de supertições, e por isso deixo de mencional-as.

Não há ali mais do que uma cidade petrificada ou construida por um povo antiquissimo e civilizado, de que já não temos mais noticia, existindo sómente aquelles vestigios.

Tem n’ella sete praças, e é claro, que dali lhe venha o nome de Sete-Cidades, confundindo-se com o das sete praças.

Oitenta e cinco leguas não me obstaram a ir vizitar aquelle lugar, onde demorei-me trez dias. A sua vista pitoresca inspirou-me dezejo de maior demora, mas... a cidade não fala!... não se move!... mesmo assim faz sismar!

Uma muralha, que volta as portas para o centro, fazendo a entrada por léste, para a cidade, por onde sómente pode passar um carro de cada vez, cérca aquelle lugar, que póde ter de circunferencia uma legua mais ou menos.

Aquella muralha, que póde ter 6 metros de altura e 4 de largura, mais ou menos, é para léste toda coberta de peças de artilheria, juntas umas ás outras e pregadas na muralha, de fórma que ninguem poderia tirar dali sem precizar muita arte. O comprimento das peças mede a largura da muralha.

Para o lado do norte oculta-se n’um bosque, que vem de longe ali esbarrar.

Para os outros dous lados, tem um certo numero de torres, que fazem lembrar um lugar de guarnição; visto que todo o seu aspecto é de uma praça forte.

Suas ruas sam bem alinhadas; as cazas sam todas ao geito de tacaniça, e separadas umas das outras, por onde póde passar um omem, e todas têem uns regos, que fingem o telhado. As pedras das cazas e torres sam impenetraveis, mais ou menos brancas, por serem d’uma especie de pedra de amolar. Bem diferentes sam as pedras da muralha, por serem de uma tempera mais dura. Bem parece, que o fogo ali teve sua influencia, pois se diferençam camadas, dando aparencia de materia fundida.

Mais diferentes ainda sam as pedras das peças, porque se assimilhão na côr ao ferro velho enferrujado, e si não ouvésse aquella diferença de côres, dir-se-ia, que muralhas e peças aviam sido fundidas de uma vez.

Quando anteriormente vizitei este lugar, as peças estavam xeias de uma areia alvissima, breada em alguma amalgama, mas que facilmente se dezentupiam, como fiz com uma até o meio.

Um arco de abobada guia o absorto vizitante ao sahir da primeira para outra praça, como todas as mais, coberta de arvoredos.

A planicie, onde está sentada a cidade, é cortada ao lado de léste, a qual se póde xamar de terra talhada. Este talhado fica distante da muralha cerca de 20 metros, e outros 20 podem medir sua decida um tanto rapida.

Da primeira e maior praça, que ali existe, rebenta um fio d’agua, convertendo-se em um corrego, a pouca distancia, o qual vae-se engrossando, e á proporção que se prolonga, sae por um pequeno boeiro feito na muralha, e, a poucas braças de distancia, dezaparece de todo, para mais tarde renacer ao pé do talhado com mais força, afim de refrescar uma grande quantidade de fruteiras, taes como a manga e a jaca, que, vegetando em suas margens, compõe um magnifico panorama ao contemplar-se da cidade.

Sae dali o vizitante pensativo: olha para traz, vê as cupulas do elevado torreão; depois de caminhar uma legua, surprende-lhe: aqui uma pequena rua, ali seis, oito cazas, depois mais duas e trez... similhante aos restos de um grande lugar, e á noite luta em sonhos com aquelle portento!

Jacome Avelino.
Constituição (gazeta publicada na capital do Ceará) de 1886.



De: ARARIPE, Tristão de Alencar. Cidades petrificadas e inscripções lapidares no Brazil. Revista do IHGB, tomo L, parte I, 1887, pp. 226-227.

Nenhum comentário:

Postar um comentário